sábado, agosto 20, 2005

Sopro de Saudade





É unicamente quando o mar ou a terra nos separam daquilo que consideramos, efectivamente, importante que nos apercebemos do que realmente significam para nós.

És cruel. Surges quando sabes que não posso evitar-te. Mas és ao mesmo tempo cobarde porque não vens só. Revestes-te de uma espécie de camada rígida e trazes contigo um turbilhão de sentimentos e emoções que se elevam ao quadrado a cada minuto que passa.

Longe, tudo se torna inalcançável. A certeza transforma-se na nossa mais temível dúvida e aquilo que considerávamos real perde todo e qualquer contorno que se possa considerar verdadeiro.

Os sentimentos alcançam proporções desmedidas. As dúvidas desfazem-se quando até precisavamos que existissem para que pudessemos pensar nelas de cabeça fria. As certezas perdem as suas raízes e começamos a valorizar aquilo que deixamos para trás e ao qual não davamos qualquer importância.

Apercebemo-nos de que a nossa existência só dá fruto quando em contacto com as nossas verdadeiras raízes. Raízes essas que nos recusamos a regar quando possuímos capacidades para tal. Mas agora que o vento nos empurrou de encontro a uma realidade que não conhecemos, que teremos que lutar para a descobrir, lamentamos esse afastamento cruel, essa desconexão dura que acabará por nos ensinar a viver.

Saudade que vens com a maresia que penetra o meu olfacto, que me surges na noite mais escura e que me obrigas a desejar nunca ter saído de onde realmente pertenço.

Quero matar-te sem encontrar arma com a qual o fazer.

Submeto-me, então, a ti e por entre lágrimas e frustrações lamento o teres aparecido na minha vida quando menos precisava, amaldiçoo a tua existência e almejo o dia em que o sol brilhará só para mim, sem a sofreguidão do teu sopro.

segunda-feira, agosto 15, 2005

Heróis


Há quem diga que só existem nas mentes que vivem obcecadas por personagens de Bandas Desenhadas ou programas animados de infância.
Há quem creia que só nos movem quando somos crianças, quando temos necessidade de procurar algum encantamento na vida e quando somos demasiado inocentes para acreditar que existem presenças superiores que lutam e que vencem sempre, que sobrevivem a ataques armados, que roubam dos ricos para dar aos pobres e que conseguem voar em tapetes encantados...
Heróis existem, mas somos nós que lhes damos vida. Compramos as suas aventuras, animamos a sua existência. Na verdade, eles só são realmente reais porque nós cremos neles.
Há dias pensava se alguma vez acreditei em heróis. E a verdade é que não me recordo de qualquer ser capaz de tomar por inteiro a minha imaginação, de desdenhar ser como alguma princesa de um reino encantado e poder encontrar algures um príncipe que lutasse por mim, que me resgatasse no seu tapete mágico, que viesse sob a forma de morcego para me raptar na noite...
Foi então que tomei consciência de que os heróis existem, não apenas na nossa infância, mas por toda a nossa vida.
Os psicólogos infantis poderão afirmar que essa obessão ocorre unicamente durante uma fase do nosso desenvolvimento. Mas se realmente assim for, talvez eu ainda não tenha evoluído o suficiente. A fase dos "Pais Heróis" não passou nem passará jamais.
Se existe alguém no mundo que merece toda a minha admiração, esse alguém é aquele responsável por me ter dado a vida.
Admiro-os com todo o meu ser, almejo no futuro alcançar toda a felicidade que os seus sorrisos espalmam, possuir essa beleza que ultrapassa o aceitável, essa atenção que acaba sempre por vir mesmo após um dia de trabalho estenuante, de problemas que assombram os seus dias.
Se me perguntarem se existem heróis na minha vida, eu direi com toda a certeza que sim. E que possuem todas as capacidades que aqueles que vivem nos livros de Bandas Desenhadas ou nos DVDs de filmes animados. A única diferença é que estes são reais.
Vivem aqui, bem dentro da minha vida e do meu coração.
Um grande beijinho aos meus pais que adoro e que cada vez admiro mais.