terça-feira, novembro 09, 2010

Se

Se a perfeição tivesse sabor, seria agri-doce como trago de comida chinesa. Saberia a mel e amêndoas doces, a gelado de limão regado a chocolate bem quente.
Se a perfeição falasse, diria palavras de sol e de lua, gritaria frases mudas de loucura, pediria aos deuses para não se esfumar nas nuvens de algodão que o céu criou.
Se a perfeição fosse mulher, teria cabelos de mar, pele de criança recém-nascida e aroma de rosas brancas.
Se a perfeição soubesse cantar, teria voz de soneto de Bach, violinos afinados por Mozart, sinfonias de anjos a encher o ouvido cansado.
Se a perfeição pudesse falar, diria que eram horas de acordar, que o dia estava azul, a chuva havia partido para um lugar bem longe da minha mente e o sol raiava agora sim e para sempre.
Se a perfeição, de facto, existisse, seria minha e só minha, viveria aqui onde os campos são verdes, os universos profundos e os sonhos maiores do que o mundo.
Se a perfeição vivesse, seria boa como o som do amanhã que nunca há-de chegar.

terça-feira, novembro 02, 2010

Anulei-me

Passei a viver por ti.
Como se tivesses partido para longe e deixado comigo o teu coração.
Passei a sentir por ti.
Como se a dor fosse minha e a luta e a batalha eu as trilhasse sozinha.
Passei a lutar por ti.
Como se a vitória fosse a minha única ambição e o sabor de vencer a minha única solução.
Agora que não lutas, não batalhas e não vês futuro, que parte de mim irá sorrir?

segunda-feira, outubro 18, 2010

Fazes-me falta

Detesto frases feitas, mas porra. Fazes-me falta.
E tanta que podia gritar ao mundo que odeio saber que a solidão se aninha aos meus pés nas noites frias, nos dias serenos, quando o barulho aqui à volta é tão abafado que parece o som do comboio da Granja em dias de tempestade. Falo com ela. Digo-lhe que sei viver sozinha, que sei trabalhar sem o teu apoio, que sei chegar ao fim do dia sem falar contigo, sem te dizer que "está tudo bem" e ouvir o teu silêncio. E gostar dele. E rir-me dele. E ouvir-te rir do lado de lá. Ou barafustar. Ou então odiar o teu lado de mundo perdido, de mundo partido, de mundo traído. O teu lado tão real e tão cruel de vida injusta, de vida ingrata, de vida durida.
E falo com ela. Com a solidão. Porque quando tu não estás é ela quem me faz rir. É ela quem lancha comigo e me chateia por comer tantas bolachas. É ela quem gosta de mim pela manhã, com cara de sono. É ela quem me arruma os cabelos, me beija a testa e me diz que não gosta de mim com um sorriso trocista e doce e os olhos a cintilar. Quando tu não estás é ela quem me pede para conduzir, porque está com preguiça, é ela quem me diz que chega cedo pela manhã e aparece só depois das 11h. É ela quem me fala de planos pontuais e os desmarca no momento exacto.
Sabes. É ela quem me ouve a dizer que odeio o que faço, que odeio ser submissa, que odeio viver os dias como noites e as noites como infinitos.
Quando tu não estás acho que é ela quem me faz feliz. Porque a felicidade depende do aqui e do agora. E, se tu não estás, é ela quem me ensina a amá-la. Tanto mas tanto ao ponto de já não duvidar da falta que me fazes.

segunda-feira, outubro 11, 2010

Medo

Hoje acordei quando a manhã ainda era uma criança. Ainda mal os primeiros raios de sol se avistavam, ainda as primeiras vidas acordavam para o primeiro dia da semana.
Acordei com o coração saltitante e o frio na barriga que senti outrora, em momentos especiais que me faziam medo.
Sempre lidei mal com a novidade, o desconhecido, o medo. O medo da dor, o medo de errar e o medo de falhar.
Não sei qual destes dois me aperta mais o estômago, mas se os últimos poderão ou não depender de mim, está certo que o primeiro de todo não dependerá. Por isso acho que, por exclusão de partes, é esse o que mais me assusta. O medo da dor.
E pronto. Estou com medo. Acho que não o sentia nem o admitia há demasiado tempo, quando as mãos eram pequenas e o coração enorme para tanta vida. Agora as mãos são maiores e a vida mais curta, o coração apertado já quase não tem espaço para mais sonhos, que entram e entram e nunca saem.
Porque eu nunca desisto, e eles nunca se realizam. Então vão ali ficando, como num frigorífico gelado de recordações e vontades, num canto esquecido mas sempre lembrado do esquecimento à espera que um dia ganhem asas e voem. Aquelas asas que nunca me disseram onde se compram.
Porque se dissessem, eu ia lá, juro que ia. Sem medo. E sem frio na barriga.

sexta-feira, setembro 24, 2010

Dúvida


Chegas e não bates à porta.

Entras, fria e distante e sentas-te. Sorris.

Ali mesmo, junto a mim, à minha secretária feita de sonhos e ilusões, coisas doces e noites boas.

Não falas nem vês. Só escutas. Só olhas. E o teu olhar é tão penetrante e atroz que me congela os dedos. Não posso escrever mais. Impedes o meu raciocínio de arrancar. Atrofias, por fim, toda a máquina que me faz produzir.

Então páro e finalmente evito mais o ter de te ignorar.

Falas comigo em linguagem de amor, de vida, de crueldade. Falas de mim, do meu passado, do meu presente. Bebes água porque não te queres deixar embriagar e atiras para o ar a arma que sabes que me deixará no chão.

Dizes adeus e sorris, com o mesmo sorriso que me atiraste no momento em que entraste. Só que agora sei do que te ris, sei do que troças, sei o prazer que te dá ver-me só.

Fecho-te a porta com raiva doce, com lágrimas de sal e com sapatos de veludo.

Ali, na cadeira onde te sentaste, que tem rodas e é fria como a Serra da Estrela em Janeiro, sentou-se o meu futuro. O presente que me deixaste. Queres que fale com ele e lhe pergunte se quero que fique.

Mas não quero. Nem falar, nem deixá-lo ficar. Quero que parta contigo e me deixe sozinha. Eu sei que ele já não é o meu melhor amigo. O Futuro.


Foto: aqui

quinta-feira, setembro 16, 2010

Fazer conversa... com conteúdo

- Você é jornalista. E gosta do que faz?

- Gosto de ser jornalista. Mas não gosto do que faço.

(Quero mudar de vida, porra)

Gostar muito

Gostar muito não basta.
É preciso ser-se reconhecido.
Gostar muito é pouco.
Quando o nosso valor é esquecido.
Gostar muito é nada.
Quando a dedicação é respondida à facada.
Gostar muito ou pouco é mesmo inútil
Quando tudo em redor perde o sentido e se torna fútil
Quando as paixões são abafadas pela incapacidade
E quando o nosso maior sonho fica reduzido à imbecilidade.
Mais vale não gostar, ou aprender a deixar de gostar
De tudo aquilo que um dia se aprendeu a adorar.

quarta-feira, setembro 01, 2010

A aventura, os limites e o desconhecido Caminho de Santiago Português


São 17h e o calor aperta forte. A mochila já está às costas, o chapéu na cabeça e o equipamento a rigor. Na mão, a garrafa de água e, no peito, uma ansiedade incontrolável. Parto. Disso tenho a certeza. Há despedidas, acenos e “boas sortes”. Há “tenham cuidados”, “até breve” e, o pior de todos os conselhos, “se não aguentares, desiste”. O Caminho de Santiago começa a ser desbravado nos limites da aventura e nas bermas do auto-conhecimento. Nos próximos dez dias, muitos quilómetros serão feitos, muitas culturas trespassadas e, acima de tudo o resto, muitos limites serão postos à prova. E irão vencer. Até breve. 250 quilómetros separam-me do padroeiro.


“Agora não há volta a dar”, penso enquanto inicio a primeira subida do dia. Perosinho é hoje uma terra estranha, que perde a familiaridade de tantos anos de vida, e se começa a revelar o início de uma grande incógnita. As primeiras gotas de suor começam a cair à medida que se aproxima a temida Serra de Canelas.
A calçada romana é fresca e plena de árvores. Do cimo avistam-se abertas que deixam vislumbrar a terra que deixo. Continuo a caminhar. Conheço o lugar, os cheiros da terra, a força do caminho íngreme. A mochila, que até agora nem sentia, começa a recordar-me que não estou só. Há mais seis quilos de peso que se fazem sentir sobre os ombros.
Uma hora depois chego a um dos pontos mais altos da etapa: Alto das Torres. Paro para o primeiro abastecimento de água. Sei que até Santo Ovídio a inclinação será contrária à vontade do corpo. Os gémeos doem e começam a sentir-se os primeiros sinais do peso sobre os pés: “Acho que estou a fazer bolhas”. O tendão de Aquiles está vermelho e saem os primeiros pensos rápidos. Chegava o primeiro contratempo e, com ele, o lado menos bom da peregrinação.
A chegada ao Porto foi menos feliz do que o esperado, com o desalento da falta de indicações de percurso. Ao embater de frente com a Igreja da Lapa, ganho também noção de que estou perdida. Não há continuação, não há informação, não há solução. Procuro quase desesperadamente uma seta amarela (o Caminho de Santiago está assinalado por setas amarelas pintadas à mão). Sem sucesso. Passa das 20h e os comerciantes já recolheram. O Porto é perigoso a esta hora e decido parar por ali. Um prego em pão parece-me perfeito para me recompensar o esforço indecifrável das primeiras horas de aventura. A noite seria na Pousada da Juventude. E seria mal dormida. Temida. De muita reflexão.


“Serei capaz?”
As dores nas costas com que o primeiro dia de percurso me brindou avisavam que o dia dois não seria etapa fácil. Percebo que a perfeita regulação da mochila poderia ser a chave da superação e, aí, retiro da mente o enorme peso do medo. Aos poucos, a bagagem passa a fazer parte de mim e a cair num poço de esquecimento que apenas bate à porta da lembrança com pequenos picos de dor.
Despeço-me do feio cenário citadino do Porto, atravesso o equivalente centro da Maia e percebo que a decisão de seguir pela Ponte de Moreira, evitando a travessia da perigosa EN13, revelar-se-ia uma aposta ganha. O aproximar da ruralidade das aldeias maiatas faz aumentar o ânimo, que só decairia perto da hora do almoço, com a consagração: uma bolha no pé esquerdo. O diâmetro de cerca de dois centímetros deitava por terra toda a confiança ganha de manhã.
Iniciava-se a verdadeira peregrinação. Fazer a vontade de chegar esquecer a dor física e o sacrifício começou a entrar na rotina e, minutos mais tarde, não havia praga que retirasse o sorriso do rosto. Encontro pelo caminho os primeiros peregrinos. Falam alemão e espanhol e iriam encontrar-me no antigo e pouco acolhedor Albergue de São Pedro de Rates. À noite, o sentimento é duro, mas de vitória. Consegui. 37 quilómetros cumpridos em pouco mais de dez horas de caminho era mesmo uma grande bandeira de vitória.


“A sofrer, a sofrer, mesmo sem poder”
A aparente curta distância da terceira etapa permitia fazê-la com alguma calma. Mas o descanso que me acompanhou desde as 6h cedo começou a pesar. As pernas não mexem ao ritmo do dia anterior e as poucas horas de sono reflectem-se na grande dificuldade em romper a etapa de pouca dificuldade. Mesmo assim, pouco passa das 10h quando se dá a chegada a Barcelinhos. Convenço-me de que a etapa está praticamente concluída, mas a informação de que ainda faltam mais dez quilómetros para atingir o Albergue da Recoleta, em São Pedro de Fins, atira por terra o alívio. Rapidamente os 15,5 quilómetros da etapa se transformaram em dolorosos 25. Sob um sol irrespirável e a trepar uma inclinação quase impraticável, eis que se dá a chegada ao albergue. As excelentes e modernas condições da estalagem fazem esquecer o sofrimento da etapa. Mas a descida brusca da tensão arterial relembra que o corpo também se queixa, quando o esforço é muito.
O dia seguinte seria novamente de dificuldade pouco acentuada. Entre Barcelos e Ponte de Lima, as pingas de orvalho molharam nas primeiras horas da manhã, mas dissiparam-se à medida que se aproximava a bonita cidade minhota. Batiam as 12h quando chegava a Ponte de Lima e cinco horas distavam até à abertura do Albergue de Peregrinos. Quando as portas se abrem, o paraíso do descanso e das excelentes condições espreita. Há peregrinos de diversas nacionalidades. Alemães, canadianos, franceses, italianos, espanhóis e brasileiros. Portugueses só nós. Mas o convívio acabaria mesmo por se revelar uma das mais interessantes ofertas do caminho.


“A Serra da Labruja sobe-se de nariz no chão”
Disse-me o simpático e familiar hospedeiro de Ponte de Lima, aconselhando-me a descansar a meio da etapa que já levava esboçada. Decidi partir à aventura para aquela que se revelaria a pior e mais dolorosa etapa de todo o caminho. O pico da dificuldade dava-se no mesmo dia em que a dor no osso da bacia que me massacrava desde o dia anterior começava a tornar-se atrofiante. Não foi. E a Serra da Labruja surgiu. Medrosa e assustadora. Inclinada e quase impraticável. Desesperante e quase motivadora de desistências. Mas não me venceu.
A beleza rural dos primeiros quilómetros do dia foi dando lugar a uma paisagem infinita de pinhal, onde não se avistava céu nem fim, e onde o pânico poderia surgir a qualquer momento. E vieram as tão temidas subidas. O coração bateu forte. E os joelhos gritaram. E o nariz quase tocou mesmo no chão. E elas repetiram-se, em inclinações impensáveis, em pisos de pedras incertas e dolorosas, vezes sem conta, batendo à porta do desespero. As pernas tremiam e o suor escorria. Mas venci. E Rubiães surgiu pequena e desoladora. Podia ter ficado por ali, acomodar-me no albergue existente. Mas decidi duplicar o número de quilómetros. Mais 20 me esperavam até Valença.
Não foram difíceis comparados com os primeiros quilómetros do dia, mas também nada mais o seria, depois de ter sido cruzada a dolorosa Serra da Labruja. Para trás deixei alemães e espanhóis. Só nos acompanharam os rostos conhecidos dos brasileiros, dos italianos e de um espanhol, que se revelaria um fiel amigo do caminho.


Adeus Portugal
É domingo. Saí terça-feira de casa e despeço-me agora de Portugal. Embora os 34 quilómetros da etapa de hoje não me permitissem facilitar, não previa uma jornada dura. Mas fiz mal em confiar no traçado do mapa e pior ainda nas boas horas de descanso, porque essas não foram capazes de preparar suficientemente o físico para a etapa seguinte à “rainha”. Às 6h15, Valença era fria e pouco atraente, enquanto Tui sorridente e desafiador a conhecer. Mas era domingo, dia sagrado na vizinha Espanha. Nada se passava.
Os caminhos verdes da bonita cidade espanhola deram lugar ao asfalto irregular, preponderante ao longo da jornada, fazendo os pés fervilharem. A chegada ao Porriño, por uma infinita zona industrial, acentuava o desinteresse pelo percurso do dia. Mas também de surpresas bonitas se fez o Caminho. À chegada à pequena localidade de Moz, onde parei para carimbar a credencial que testemunhou a minha passagem pelas diversas localidades, eis que um residente se confessa português e natural de Olival. Sorri pela ironia do destino e segui viagem em direcção a Redondela, onde chegaria cerca das 15h. Os últimos quilómetros do dia recordavam que quando o cansaço é muito já não há descidas boas nem subidas más. E as excelentes instalações do Albergue, numa antiga torre no centro da cidade, foram mal aproveitadas pelas poucas horas de sono. Nessa noite Espanha vencia o Mundial de Futebol e centenas de foliões infernizavam o descanso dos peregrinos.
Pontevedra, Caldas de Reis e Teo seriam os destinos das etapas seguintes. Santiago de Compostela estava de facto cada vez mais perto e já não havia mal capaz de desafiar a desistência. Mesmo assim, sinto as pernas a reflectirem os mais de cem quilómetros já percorridos. No destino a Pontevedra cruzo uma das mais bonitas localidades do caminho: Arcade era típica e envergonhada por entre as ruas inclinadas e as casas modernas e cuidadas. A chegada ao fim da etapa brindou com a paisagem descuidada e desoladora que assiste à entrada de quase todas as cidades espanholas. Mas Pontevedera é bonita e tradicional, com ruas cuidadas e comerciais e dezenas de citadinos a aproveitarem as horas do final da tarde nos imensos bares de “tapas e cañas”.
A Caldas de Reis chegaria no dia seguinte, após uma etapa verde e airosa, com pouco grau de dificuldade, permitindo afastar por mais tempo os pensamentos negativos e desfrutar mais do caminho. No percurso não vi alma humana. Por companhia, só o relaxante chilrear dos pássaros e o canto das quedas de água. Caldas de Reis, vila termal e acolhedora, marcou a diferença pelas caricatas condições do Albergue, adaptado às antigas instalações daquilo que parecia ser um restaurante desactivado.
Os 25 quilómetros da penúltima etapa começam a assustar à medida que se aproxima o fim. O cansaço dá de si nas primeiras horas do dia, sem ser capaz de ouvir o despertador. Apesar do nervosismo do atraso, o bom ritmo permite chegar a Padrón, cidade onde chegou, de barco, o corpo de Santiago, ao mesmo tempo que os peregrinos que haviam saído duas horas antes de mim. Abandonei a cidade antes de todos os outros e retomei o caminho. As aldeias foram-se sucedendo anónimas, em aglomerados de casas bonitas e rústicas, modernas e antigas, em ruas estreitas e sem trânsito. A Teo cheguei às 13h. Apesar da quase lotação do albergue, perdido no meio do nada, ainda encontrei uma cama para repousar. As parcas condições e a solidão da aldeia foram insignificantes, quando o coração já batia de ansiedade à espera da chegada do grande dia.


Enfim, Santiago
Quase não sou capaz de me recordar das ruas, dos caminhos, das árvores ou das pedras da calçada. A vontade de chegar era aqui mais forte do que nunca. O orgulho de ter conseguido alcançar 99 por cento do desafio era tamanho que abandonei o local de repouso ainda de noite. No meio dos pinhais escuros, nem a minha pequena lanterna era capaz de ajudar no caminho. Pouco importava. Nada temia, pois sabia que havia de chegar. Custasse o que custasse.
E custou, efectivamente. Porque perdi setas, avancei percursos e recuei novamente em busca do trilho certo. E encontrei-o. A manhã estava fria, mas pouco importava. Era hoje. Cheguei a Santiago quando o relógio da catedral espanhola batia as 8h. À porta do gabinete de apoio ao peregrino, já uma fila se formara à espera do carimbo final, aquele que certificava e testemunhava a chegada. Esperei. Nada mais havia a percorrer.
Havia, apenas, um misto de sentimentos. Não havia cansaço nem havia dores. Apenas uma grande alegria pela missão cumprida, pelo espírito de sacrifício e, em simultâneo, uma grande tristeza por ter chegado ao fim. Ter chegado ao fim a aventura, o desconhecido, o objectivo… o caminho.

segunda-feira, agosto 02, 2010

Coragem


Não se ganha nem se perde.

Tem-se. E pronto.

E quando se tem, há um ego cá dentro que cresce e aumenta como um balão. Sobe e rebenta e é grande. Sem dores nem sacrifícios. Sem gritos nem tormentos. Só porque existe. E porque quando existe quase nunca é ténue.

Depois, se não a há, é como que uma ponte suspensa feita de corda e madeira. Onde há buracos e farpas, frinchas abertas por onde se vê o infinito. O infinito no qual se pode cair se, por um momento, se corre o risco.

Pois é. É que quando ela existe, não se correm riscos. Arrisca-se e nunca se perde. Porque ela é grande e forte e imbatível.

Quando existe.

Só me resta atravessar a ponte suspensa e rezar (se é que ainda o sei fazer) para não colocar o pé em falso.

Imagem: aqui

domingo, agosto 01, 2010

Incongruências

Não gosto de dias escuros, cinzentos e sombrios
Porque cá dentro a alma entristece, fica doente e sente calafrios
Não gosto de pedras de gelo em toalhas quentes
Nem de areia da praia em gelados ardentes
Porque o sal é forte quando o doce é sentido
E o negro é quase cego quando o branco é sofrido.
Tudo na vida tem os seus bons e maus
Mas o mau é quase irrespirável quando o bom é tão querido.

quarta-feira, julho 28, 2010

Um dia

Um dia deixo de lutar e acomodo-me ao que o hoje me dá.
Um dia deixo de me preocupar e nunca mais penso em como pode ser o amanhã.
Um dia desisto de tentar mudar, os outros, a mim e àquilo que gosto.
Porque um dia hei-de perceber que nada muda só com a minha vontade.
Um dia deixo de acreditar que tudo pode ser melhor e bom e feliz
Um dia até hei-de entender que nem vale a pena sonhar
Porque um dia irei saber que, se o hoje é assim, é simplesmente porque alguém se esqueceu de mim
E de nada valerá lutar, acreditar ou querer mudar
Porque nesse dia tudo deixará de fazer sentido, tudo deixará de ser meu, tudo deixará de aceder a meu pedido.
Um dia.

sábado, maio 08, 2010

Núvem cinzenta


Falam nas notícias de uma nuvem de cinzas a sobrevoar o espaço aéreo português, a impedir voos de descolarem, em resultado da actividade sísmica de um vulcão na Islândia.
Por momentos penso que algum orifício terá deixado entrar resíduos de cinzas na minha alma. Não pode voar, deixou de sonhar e encontra-se sentada num banco de aeroporto, a dormir em cima da bagagem, de olhos fechados. Há dias.

quarta-feira, maio 05, 2010

Eu sei que tinhas

Tinha de ser.
Nunca me pedes para fazer algo de novo. Tinhas que pedir hoje. Tinhas que me encher de alegria, de me levar à praia, de me fazer pedir um pingo de cevada só por pedir, só por pensar que querias, só por acreditar que era um dia diferente, um dia teu, um dia meu de folga como tantos, um dia para sorrir. Tinhas não tinhas?
Tinhas de me encher o peito de coisas boas, de expectativas grandes, de esperanças futuras. Tinhas não tinhas?
Para depois de eu falar, de eu rir, de eu dizer banalidades. Tu explicares o porquê. O porquê de tudo aquilo, o porquê do dia diferente, o porquê do pingo de cevada e da praia. E do acordar cedo num dia de Primavera.
Tinhas não tinhas?
Tinhas mesmo. Que me deitar abaixo. Me tirar o que nunca ninguém me deu.
Tinhas. Eu sei que tinhas.

Esperança. Para ficar.

Num dos meus mais recentes trabalhos jornalísticos, perguntava eu a dois actores de teatro qual a palavra que melhor definia a peça que acabavam de representar.
Sem hesitar, e com um sorriso rasgado no rosto, ambos me responderam: Esperança.
Tal como a mecânica do gravador para o qual falavam e que era segurado por mim, também eu gravei a palavra na mente sem conseguir deixar sair a pergunta seguinte.
Queria ter-lhes perguntado onde a encontraram e se ela lhes foi fiel. Se foi cara ou barata, se foi dada ou roubada. Se é fria ou quente, se bate na cara ou molha os lábios. Queria que me dissessem a que sabe quando é provada, se é como gelado de morango ou chocolate quente, se é amarga como as formigas que queremos provar quando somos crianças, ou doce como toda a nossa infância.
Mais do que saber onde mora, onde a posso encontrar ou qual o seu número de telefone, gostava que me tivessem dito se, quando existe, é real ou visivel, se é verde ou negra, se é eterna ou efémera.
Gostava também que me esclarecessem se vale a pena procurá-la, ou se devemos aguardar sentados que um dia ela nos bata à porta, para a recebermos de braços abertos, abrir-lhe o melhor dos vinhos, oferecer-lhe o melhor dos petiscos e deixá-la ficar. Se precisa de ser "comprada" ou a podemos vender ao desbarato a todos os que quiserem um pedaço.
Mas não fui capaz. Ficaram eles na certeza de que, em palco, conseguem transmitir a mensagem de Esperança. Fiquei eu na incerteza de saber se algum dia a vou encontrar. Para ficar.

segunda-feira, abril 19, 2010

Sentimentos ambíguos

Raiva.
Depois de ter tolerado.
Descrença.
Depois de ter acreditado.
Fuga.
Depois de ter corrido.
Ódio.
Depois de ter gostado.
Paz.
Depois de ter suado.
Eu e só eu.
Porque em mim confio.
E porque nunca estamos sós quando nos temos por companhia.

terça-feira, março 23, 2010

Todo o sentimento

Porque nestes dias, são tantos, tão bons e maus os sentimentos...
Memórias de infância que bailam e rodopiam num tempo presente que não quero sentir.

Preciso não dormir
Até se consumar o tempo, da gente
Preciso conduzir um tempo de te amar
Te amando devagar e urgentemente

Pretendo descobrir, num último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo o sentimento
Que bota no corpo uma outra vez

Prometo te querer
Até o amor cair doente, doente
Prefiro então partir a tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente

Depois de te querer te encontro com certeza
Talvez no tempo da delicadeza
Onde não diremos nada, nada aconteceu
Apenas seguirei como encantado ao lado teu

(Chico Buarque)

quinta-feira, março 04, 2010

Castelo de Cartas


Detesto jogar cartas, mas sinto que, às vezes, a vida me desafia para jogar contra ela.

Como não sei distinguir trunfos de biscas, nem cenas de duques, pergunto-lhe se não posso, em vez disso, fazer um castelo de cartas.

De sorriso manhoso, ela responde que sim. E até me vai ajudando a erguer, uma por uma, em triângulos de copas e espadas, o meu castelo.

Durante largos dias, por vezes meses, tempos infinitos de ilusão, o meu castelo vai ganhando consistência. Primeiro ténue, quebradiço e inseguro, mas, com o tempo, as cartas vão-se sucedendo em sequências lógicas, em pequenas construções seguras, em ilusões que começam a ganhar sentido.

Quando não sei se devo continuar a construí-lo, quando não sei qual a carta que sucede, quando não sei se vale a pena continuar, é ela, a vida, que do outro lado da mesa me incentiva, me diz "não desistas" e até me compra um novo baralho, para me levar a continuar.

E continuo.

Chego, finalmente, ao fim. Ao fim do tempo, ao fim do meu castelo de cartas, ao fim de dias imensos de crenças e de ilusões. E quando me preparo para colocar a última carta que, por sinal, é o ás de copas, eis que uma rajada de vento, que mais parece um sopro, abala por terra todo o meu trabalho de meses, de dias, de anos. Com o meu castelo de cartas caem todas as minhas seguranças, as minhas ilusões, os meus alicerces. Com ele, cai também a minha vida que, prostrada no frio do chão, ri à gargalhada da ilusão que foi criando em mim.

Foi ela, a minha vida, quem soprou com desdém, a minha construção de sonhos e ilusões. O meu castelo de cartas.

Talvez devesse ter jogado com ela à sueca.


Foto: aqui

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Seis

Lembras-te do quanto odiavas o meu penteado à "pipi das meias altas" e a minha mania de usar o risco ao meio?
Lembras-te do quanto nos ríamos das piadas do Gil e do quanto te divertia o sentido de humor dele?
Lembras-te do quanto gostavas de ajudar e da tua sinceridade fria?
Sabes que me tornei igual a ti? Na frontalidade, nas palavras sérias, na vontade de ser eu própria?
Lembras-te da força de vontade única e da garra inquebrável que te definia?
Sabes que nunca te vou igualar nisso?
Sabes que já se passaram seis anos desde que foste e que nada nem ninguém no mundo me fará esquecer tudo o que passamos juntas?

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Nadas e coisas algumas


Gosto de voar, em altos e baixos pacíficos, em sonhos e distâncias alcançáveis, em universos longínquos e distantes, sem nunca sair do chão.

Gosto de correr, em planícias longas e perfeitas, em verdes infinitos e pálidos, em estradas serenas e desabitadas, sem nunca perder o norte.

Gosto de acreditar, que o mundo é um lugar familiar, que os estranhos são seres reconhecidos e dóceis, que o imprevisto é uma porta aberta de possibilidades boas e doces.

Gosto de saber, que a felicidade se divide em quarteirões de portas fechadas, que os sonhos são comandados pela vida e não pela vontade, que o certo se torna incerto pelo sopro do vento e que o amanhã é um nada constante, vazio de sentidos e certezas, despido de crenças e vitórias, coberto de nadas e coisas algumas.


Foto: aqui

segunda-feira, janeiro 04, 2010

2009



2009, o ano dos sonhos

2009, o ano das dores

O ano em que me levaram o Leo

O ano em que me ensinaram o perigo de andar na estrada, sobre quatro rodas

O ano em que o repetiram insistentemente

O ano em que me ensinaram que os sustos leva-is a vida

E que a vida é tudo a que temos de nos agarrar quando os sustos são grandes

2009, o ano de não festejar o aniversário

O ano de o avô ser internado

O ano de ter boas notícias

De acreditar na medicina humana

Porque na veterinária, está provado, não vale a pena.

2009 o ano dos belos Açores

De aprender que há sempre um dia para ganhar coragem e partir à aventura

O ano da mudança no destino das férias

E no sentido das férias

O ano de abdicar das férias em prol do sonho... ou da obrigação

2009, o ano do aperto

O ano das eleições autárquicas

E das surpresas más.

O ano do estágio profissional,

Do sonho, da realidade, da carteira de jornalista.

O ano da profissão, o ano de aprender que a profissão não é tudo, e que pode ser nada quando passamos a viver em prol de outro mais do que a favor de nós próprios.

O ano de querer com todas as forças a sua realização

De me esquecer de mim, dos meus sucessos, para pensar em largá-los em prol dos teus.

O ano da tese de mestrado, do mestrado e do título de mestre.

O ano do orgulho em mim, da falta de crença, da perda da esperança.

2009, seguramente o pior e o melhor ano da minha vida.

O ano de acreditar que há sempre forma de mudar,

De crer em dias melhores

E de, na inocência de uma certeza incerta, pensa que é de um dia para o outro que o destino nos muda a vida.

Foto: aqui