segunda-feira, outubro 21, 2013

Guardo a tua vida

Guardo a tua vida na minha bolsa, na minha cabeça, no meu coração.
Guardo como se fosse minha, como se fosse nossa, como se fosse uma canção.
Guardo-a como a esperança, que acalento todos os dias, que alimento sem me cansar,
Guardo, enfim, com confiança, como quem não tem medo de se deixar atraiçoar.
Depois, tu vens com frieza, e pedes-me a vida que um dia guardei
E eu, sem ter a certeza, acabo por dar-ta, por entregar-ta, como se fosses meu rei
Cá dentro fico vazia, temo o nosso futuro, mas nunca me lamento
Fico para aqui prostrada, desejando a alegria de um novo momento.
Tu segues a tua, como se fosse só tua, a vida que criaste
E eu fico para aqui deitada, como se não se passasse nada, presa por um guindaste.
Sei que és dono e senhor, dominas e fazes o nosso futuro
Sei que nada posso prever, porque és tu que constróis o nosso pequeno muro
Sei que se um dia for como eu quero, será por suor, será por exaustão
Será porque nunca falei, nunca te confessei o que realmente sente este meu coração.
 

terça-feira, julho 30, 2013

Ir e voltar

Lá ao longe, por entre o aroma intenso da linha do comboio, que não sei a que cheira, mas que cheira como nada mais, vejo-te voltar.
Nas costas trazes verde, de esperança, de liberdade, de força que tens e que eu só sei invejar. Nada mais senão invejar.
Quero que voltes e vejo-te voltar. Mas quando chegas trazes o mundo e eu não o quero suportar.
Depois partes de novo, e voltas, e partes e voltas como se nada mais fizesses senão ir e voltar.

Lutar pelos meus sonhos

Vou e venho numa maré de águas turvas, num monte de folhas mudas, que alguém se esqueceu de apanhar.
Vou e venho, numa rotina de engrenagens perras, num rodopio de viagens negras, onde nunca quis ingressar.
Vou e venho, escapando escassa ao vento, fugindo de qualquer tormento, mas sempre com vontade de voltar.
Vou e venho, e vou, e venho, como se ir e vir fossem palavras esquecidas, que alguém se esqueceu de apagar.

E fico, num limbo de fumo verde, afogada em medos e desalentos, com vontade de voltar
E parto, com as costas carregadas de prantos, as mãos inteiras de espantos, como se não pudesse ficar
Então olho, e atrás de mim uma vida perdida, uma nuvem inteira de vida, um espraio de caminhos medonhos
E continuo, porque nada me vai impedir, nada me vai demitir de lutar pelos meus sonhos.

terça-feira, abril 30, 2013

Escolhi a dor

Escolhi a dor. Como quem não tem outro caminho, como quem não sabe andar sozinho, como quem não conhece o sentimento.
E escolhi a dor. Como uma mágoa guardada, uma promessa quebrada, que me marca a alma a todo o momento.
Escolhi a dor, em busca de um reconforto, de um passado morto que a minha fé nao abalou.
E a dor vai-me marcar, vai-me para sempre acompanhar como uma chaga que não fechou.

terça-feira, março 19, 2013

Quero que isto dure para sempre

Há vozes tenras e gritos fortes.
Há mãos pequenas e olhares entusiastas.
Há cor, há magia, há infância e fantasia.
Música. Multidão. E uma alegria enorme no coração.
Todos cantam. Alguns dançam até.
E eu, sem refletir, também me ponho de pé.
Os sons atropelam-se numa amálgama de luz e cor.
As vozes elevam-se e giram em meu redor.
Embriagada de emoções mexo-me sem nunca parar
Até que tudo chega ao fim, e cada um volta ao seu lugar.
No regresso, com as lágrimas a cair
O Rodrigo não quer ir embora. O Rodrigo não quer sair.
"Quero que isto dure para sempre".
Também, Rodrigo. Também eu.

segunda-feira, novembro 19, 2012

Juro, prometo

Tenho cá dentro um vazio tão grande e tão fundo
Que é quase tão denso como um rio, tão largo como o mundo.

Tenho na alma uma dor que é tão fria e tão crua
Que lágrimas o meu olho não cria, não arranco os olhos da rua.

Tenho no peito uma tristeza, tenho no coração uma falta
Tenho a minha força sobre a mesa, tenho a minha coragem fora da ribalta.

Se um dia voltares para mim e souberes como preencher esta cratera
Juro, prometo que vai ser o fim, e nada, nunca mais será aquilo que era.

(Lolita, 10/11/2012)

quarta-feira, outubro 17, 2012

apaixonar

gosto de me apaixonar. todos os dias por ti. como se fosses sempre outro, sempre novo, sempre o primeiro.
gosto de te descobrir sempre demais. sempre mais. sempre ainda mais.
como se fosses de pedra e eu te soubesse limar. como se fosses de gelo e eu te soubesse esgrimar.
gosto de te encontrar como se fosse a primeira vez. de te abraçar como se lá fora o mundo não existisse e por fim te abandonar, te deixar ir, como se nada te prendesse, como se nada nos unisse, como se nada existisse.
e vais. nas costas levas o mundo inteiro, os sonhos que construíste. os que eu construí contigo. as ambições que crias cada dia, cada vez mais, que são grandes e pesadas, maiores do que as tuas mãos, enormes que nem a tua vida. grandes demais penso eu.
na alma não sei o que levas. não sei sequer se me levas. mas um dia gostava de descobrir.
eu fico, a ver-te partir. com um sorriso que finge e um nó na laringe. com uma esperança que não tens e que perco ao ver-te fugir. com o nosso futuro nas mãos, que se esvai ao olhar-te, ao ver-te ir.
e depois sei que te amo. sempre mais. sempre forte. como no primeiro dia. como da primeira vez.
porque quando voltas, o olhar distante, as conversas pesadas e os sonhos perdidos, gosto de me voltar a apaixonar. pelo teu lado escuro. o teu pensamento inseguro. e pela tua vontade de não regressar.

terça-feira, setembro 25, 2012

Tenho em mim

Tenho em mim sonhos adormecidos, desejos esquecidos, anseios escondidos.
Tenho-os aqui perdidos, como pássaros desprendidos, como gritos não ouvidos e passeios destemidos.
Tenho em mim palavras não ditas, frases não escritas e tantas memórias não descritas.
Que às vezes penso que me engano, às vezes quase que esgano a vontade de as agarrar.
São sonhos que adio, são vidas que não crio, paixões que não deixo voar.
São partes de mim que mato aos bocados, que desfaço em pedaços e prefiro não lembrar.
De mim sobra uma réstea de ambição, uma memória de paixão, uma esperança no chão,
De mim sou só eu e elas, que atiro pelas janelas, na certeza de que jamais voltarão.

segunda-feira, julho 23, 2012

Não sei o que quero

Não sei o que quero. Mas sei que não quero estar aqui.

Não sei quem sou. Mas sei que não quero ser esta que me prende, que me anula, que faz de mim um coração duro e sofrido, de lembranças pequenas e sentidas. Longe de mim.

Não sei se quero sair. Mas sei que não quero ficar, não quero perder a cada dia que passa, não quero cair a cada palavra que faça, não quero morrer a cada voz que me extravasa.

Não sei se quero perder. Mas aqui não estou a ganhar, ausente da minha essência, perdida da minha aparência.

Não sei se quero partir ou ficar, se quero dormir ou levantar, se quero rir ou chorar. Não sei se quero.

Não sei o que quero. Mas sei que aqui não quero estar.

domingo, março 04, 2012

Chegou a hora

Chegou a hora de pôr fim e dizer adeus.
Sem olhar para trás, sem ter saudades e sem sequer pensar.
Sem sorrir, nem chorar.
Sem tremer ou sequer vacilar.
Chegou a hora de fazer a mala, desatar amarras e ir.
Ir, sem perguntar, e às vezes sem acreditar.
Mas ir.
Porque sonhei e quis, porque lutei e não fui feliz.
Porque acreditei sem nunca saber,
Mas também me dediquei sem nunca me temer.
Chegou, hoje, a hora de dizer adeus, e de nem sequer ponderar um até já.
De quebrar com quem não me mereceu, e de nem chorar por quem não me quis lá.
Vou, com o futuro nos olhos e a força nas mãos,
Vou, avançar barreiras e não temer os chãos,
Vou, como se ir fosse o único caminho,
E vencer o meu único e inevitável destino.

Até sempre,
AUDIÊNCIA.
(2007-2012)

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Enterro a tua memória

Enterro a tua memória sob a areia molhada e a relva verde.
Lembro-me de ti em nuvens de fumo ténue e às vezes ainda sorrio.
O bom que vivemos é, por vezes, o único sinal que te envio.
Mas, quando a recordação bate à porta e me diz que partiste
Reservo para mim a raiva eterna e assumo que fugiste.
Então enterro a tua memória sob a areia molhada e a relva verde.
Porque não gosto do passado nem daquilo que ele te fez
E não gosto do dia de hoje nem de tudo o que se desfez.
Se a tua memória vive e é conduta numa conversa
Então sinto sal na boca e fujo pela porta que deixaste aberta.
Peço-te que vivas no mundo que escolheram para ti
E que daí de cima guies o percurso que escolhi
Mas enquanto te nego e procuro sem te encontrar
Espero que fiques sempre no sítio onde resolvi te enterrar.
Então enterro a tua memória sob a areia molhada e a relva verde.

Desculpa, Avó. (18/01/2004)

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Grito

Quero.
Tanto que me doem as forças de tanto o querer.
E luto.
Luto tanto que de mim foge o futuro, com medo de me ter.
Ambiciono.
E vou à procura como quem perde a alma na paisagem .
Sonho.
E quase me acredito de que a sorte não passa de uma miragem.
Então procuro.
E nada é tão forte que me faça perder da vontade de ganhar.
E vou longe, fundo, como só eu sei
Na ânsia desenfreada de o conseguir desvendar.
Porque sou forte, acredito
E peço, e rezo e suplico.
E porque sou nada
Espero, resigno-me e no fim...
Grito.

segunda-feira, novembro 21, 2011

Morrer na praia

O sal na boca corta-me os lábios finos e secos. O aroma a maresia é putrefacto e enoja-me. A areia, ao vento, toma rumos de nortada e corta-me a face como navalhas afiadas, como picos de rosas secas. No corpo não tenho roupas, nas mãos não tenho anéis. Numa poça de água vejo-me e não sou nada. Pequena. Desprovida. Despida. As ondas batem lá ao fundo, cinzentas e revoltas. Gaivotas emitem ruídos como gritos, passeiam junto à areia em busca de alimento. E eu arrasto-me. Sem forças. Sem pernas nem mãos. Sem ser ninguém, rebolo na areia molhada. Os grãos são muitos e penetram as entranhas, envolvem os cabelos molhados e suados. Cansados. E são tantos e tão pegajosos que não descolam. Não secam nem molham. Tapam-me as pálpebras, as narinas e a boca e impedem-me de respirar. Ao longe, as aves que até agora passeavam junto ao espraiar das ondasm fazem-se ouvir cada vez menos, cada vez menos, cada vez menos. As ondas morrem lá ao fundo, onde não há céu, não há mar nem praia. E o vento é cada vez menos forte. Os olhos já não abrem e o coração quase nem bate. Aos poucos deixo-me ir sem resistir. De nada vale.

terça-feira, outubro 11, 2011

Arrumar a vida

Arrumar a vida como quem organiza gavetas, de papéis velhos e rasgados a recordações antigas e esquecidas.
Arrumá-la em prateleiras vazias, repletas de sims e nãos, de bons e maus, como quem limpa espelhos partidos.
Arrumar os dias em pedaços, desfeitos em desencontros, roídos por um tempo que não passa.
Arrumar o passado por debaixo do tapete rasgado, que ninguém pisa e ninguém calca, que ninguém sacode e ninguém lava, que existe por existir e não para ser lembrado.
Arrumar o que fui e o que não sou em páginas em branco de um livro que nunca escrevi e, no fim, saber que nada do que sou é meu, nada do que é meu me pertence e nada, a não ser um nada profundo, é fruto do meu querer.
Arrumar a vida é como lavar lençóis brancos ao vento. Deixá-los secar em contratempo, sem esperas e sem procuras. É aguentar com a corrosão alva e mesmo assim saber viver com desencontros e desilusões.

quinta-feira, agosto 04, 2011

Ilusão

doce como um gelado no verão, chegas e apoderas-te de uma existência que não é tua nem minha. que me deram. como quem dá rosas em dias de chuva.
depois ficas. e amadureces. como quem rega árvores de fruto e de frutas que não crescem, não são vermelhas e não têm açúcar.
vais estando, ocupando os dias e as noites. e quando já nem te quero, já és mais do que real. és minha. és vida. 
impertinente e inconveniente. estás. vestes de manto branco cintilante as horas do dia que não quero viver e apagas com borracha branca e sem mancha os amargos e os intragáveis que não quero comer.
adoro-te e venero-te no fim. como se Deusa fosses, como se real te achasse. e quando te faço minha, te deito na minha cama e te dou a minha vida, és cruel e maliciosa. sais pela porta que fechei, com a chave que não te dei e pelo caminho que não te tracei.
vais embora. comigo só o rasto e a sensação. tomara que não fosses uma só e dura ilusão.

quarta-feira, julho 13, 2011

Nada

Nada cá dentro mexe, salta ou agonia.
Nada cá dentro grita, sente ou arrepia.
Nada cá dentro suspira, aflige ou faz rir.
Nada cá dentro encanta, alegra ou faz sorrir.
Nada que vem de dentro é suficiente forte para apagar memórias
Nada que vem de fora pode dar força para fazer escrever
Nada cá dentro é motivo para as minhas estórias,
Nada cá dentro é fogo, lume, ou faz sofrer.
De dentro vem a paz que sonhei,
De dentro vem o fim da dor que esperei,
De fora apenas o vento que bate na face,
Que sussurra ao de leve o desenlace,
E garante que o crer pode ser rei.

segunda-feira, maio 09, 2011

Deus

Acreditei em ti quando tudo em mim era cepticismo,
Chorei por ti por me sentir perto do abismo.
Acreditei em ti mesmo quando pensei que não
E quando todos me diziam que existias eu não soube dar-lhes razão.
Falei contigo, mesmo sem saber se me ouvias,
Pedi-te com toda a força que me desses a maior das alegrias.
Depois fui fraca, despojei-te, desmenti-te, virei-te as costas
Berrei contigo e comigo, fui dura, desci encostas
E quando regressei, por força da natureza
Foste Homem, foste voz, foste certeza.

Obrigada.

sexta-feira, abril 29, 2011

Rezei

Rezei.
Com todas as forças e contra todos os cepticismos.
Rezei num acto de fé sublime, que eu nem conhecia ter.
Rezei numa força incontrolável, que alguém me deu e eu não soube esconder.
Rezei de olhos fechados e coração aberto,
Rezei de concentração emocionada e de olhar deserto
Rezei sem palavras e sem controlo
Rezei num acto de consolo
Rezei porque nada mais resta
Senão a fé que não presta.
Que não é nada
Senão a enorme esperança de encontrar uma nova morada.

quarta-feira, abril 27, 2011

Acreditar.
Que tudo muda,
Que tudo volta,
Que tudo, um dia, volta ao pó e à cinza.
Acreditar, com a fé de quem crê cegamente
Que nada é nosso e a Deus pertence,
Que só ele conhece o amanhã,
E, num acto de desespero e gratidão irrefutável,
Nele entregar a vida, a sorte e o nada.
Acreditar,
Sem saber bem em quê,
Sem ter bem a força para,
Sem sequer saber o porquê.
Mas só acreditar,
Que na fé reside a esperança,
Que na ternura de uma lembrança,
Tudo pode um dia mudar,
Um dia e para sempre,
Sem nada nem porquês.

segunda-feira, abril 25, 2011

Nunca se perde o que nunca se teve

Por muito que o quisesse
E o sonhasse
Sabia que nunca o teria.
Porque não era realmente meu.
Por muito que o desejasse
E até que por ele lutasse
Sei agora que nunca me pertenceu.
Por muito que tenha nascido da incerteza
Que tenha passado a fazer parte da minha natureza
Alguém, que não eu, o possa ter feito seu.
Agora partiu, livre e distante
Vai ficar arrumado bem longe do alcance
Atrofiado longínquo num canto da estante
Para que não o olhe, não o recorde, não o faça meu
Por no fundo, no âmago da verdade, sei que nunca me pertenceu.

São assim os sonhos,
mesmo aqueles que queremos muito.


Foto: aqui