segunda-feira, novembro 19, 2012

Juro, prometo

Tenho cá dentro um vazio tão grande e tão fundo
Que é quase tão denso como um rio, tão largo como o mundo.

Tenho na alma uma dor que é tão fria e tão crua
Que lágrimas o meu olho não cria, não arranco os olhos da rua.

Tenho no peito uma tristeza, tenho no coração uma falta
Tenho a minha força sobre a mesa, tenho a minha coragem fora da ribalta.

Se um dia voltares para mim e souberes como preencher esta cratera
Juro, prometo que vai ser o fim, e nada, nunca mais será aquilo que era.

(Lolita, 10/11/2012)

quarta-feira, outubro 17, 2012

apaixonar

gosto de me apaixonar. todos os dias por ti. como se fosses sempre outro, sempre novo, sempre o primeiro.
gosto de te descobrir sempre demais. sempre mais. sempre ainda mais.
como se fosses de pedra e eu te soubesse limar. como se fosses de gelo e eu te soubesse esgrimar.
gosto de te encontrar como se fosse a primeira vez. de te abraçar como se lá fora o mundo não existisse e por fim te abandonar, te deixar ir, como se nada te prendesse, como se nada nos unisse, como se nada existisse.
e vais. nas costas levas o mundo inteiro, os sonhos que construíste. os que eu construí contigo. as ambições que crias cada dia, cada vez mais, que são grandes e pesadas, maiores do que as tuas mãos, enormes que nem a tua vida. grandes demais penso eu.
na alma não sei o que levas. não sei sequer se me levas. mas um dia gostava de descobrir.
eu fico, a ver-te partir. com um sorriso que finge e um nó na laringe. com uma esperança que não tens e que perco ao ver-te fugir. com o nosso futuro nas mãos, que se esvai ao olhar-te, ao ver-te ir.
e depois sei que te amo. sempre mais. sempre forte. como no primeiro dia. como da primeira vez.
porque quando voltas, o olhar distante, as conversas pesadas e os sonhos perdidos, gosto de me voltar a apaixonar. pelo teu lado escuro. o teu pensamento inseguro. e pela tua vontade de não regressar.

terça-feira, setembro 25, 2012

Tenho em mim

Tenho em mim sonhos adormecidos, desejos esquecidos, anseios escondidos.
Tenho-os aqui perdidos, como pássaros desprendidos, como gritos não ouvidos e passeios destemidos.
Tenho em mim palavras não ditas, frases não escritas e tantas memórias não descritas.
Que às vezes penso que me engano, às vezes quase que esgano a vontade de as agarrar.
São sonhos que adio, são vidas que não crio, paixões que não deixo voar.
São partes de mim que mato aos bocados, que desfaço em pedaços e prefiro não lembrar.
De mim sobra uma réstea de ambição, uma memória de paixão, uma esperança no chão,
De mim sou só eu e elas, que atiro pelas janelas, na certeza de que jamais voltarão.

segunda-feira, julho 23, 2012

Não sei o que quero

Não sei o que quero. Mas sei que não quero estar aqui.

Não sei quem sou. Mas sei que não quero ser esta que me prende, que me anula, que faz de mim um coração duro e sofrido, de lembranças pequenas e sentidas. Longe de mim.

Não sei se quero sair. Mas sei que não quero ficar, não quero perder a cada dia que passa, não quero cair a cada palavra que faça, não quero morrer a cada voz que me extravasa.

Não sei se quero perder. Mas aqui não estou a ganhar, ausente da minha essência, perdida da minha aparência.

Não sei se quero partir ou ficar, se quero dormir ou levantar, se quero rir ou chorar. Não sei se quero.

Não sei o que quero. Mas sei que aqui não quero estar.

domingo, março 04, 2012

Chegou a hora

Chegou a hora de pôr fim e dizer adeus.
Sem olhar para trás, sem ter saudades e sem sequer pensar.
Sem sorrir, nem chorar.
Sem tremer ou sequer vacilar.
Chegou a hora de fazer a mala, desatar amarras e ir.
Ir, sem perguntar, e às vezes sem acreditar.
Mas ir.
Porque sonhei e quis, porque lutei e não fui feliz.
Porque acreditei sem nunca saber,
Mas também me dediquei sem nunca me temer.
Chegou, hoje, a hora de dizer adeus, e de nem sequer ponderar um até já.
De quebrar com quem não me mereceu, e de nem chorar por quem não me quis lá.
Vou, com o futuro nos olhos e a força nas mãos,
Vou, avançar barreiras e não temer os chãos,
Vou, como se ir fosse o único caminho,
E vencer o meu único e inevitável destino.

Até sempre,
AUDIÊNCIA.
(2007-2012)

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Enterro a tua memória

Enterro a tua memória sob a areia molhada e a relva verde.
Lembro-me de ti em nuvens de fumo ténue e às vezes ainda sorrio.
O bom que vivemos é, por vezes, o único sinal que te envio.
Mas, quando a recordação bate à porta e me diz que partiste
Reservo para mim a raiva eterna e assumo que fugiste.
Então enterro a tua memória sob a areia molhada e a relva verde.
Porque não gosto do passado nem daquilo que ele te fez
E não gosto do dia de hoje nem de tudo o que se desfez.
Se a tua memória vive e é conduta numa conversa
Então sinto sal na boca e fujo pela porta que deixaste aberta.
Peço-te que vivas no mundo que escolheram para ti
E que daí de cima guies o percurso que escolhi
Mas enquanto te nego e procuro sem te encontrar
Espero que fiques sempre no sítio onde resolvi te enterrar.
Então enterro a tua memória sob a areia molhada e a relva verde.

Desculpa, Avó. (18/01/2004)

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Grito

Quero.
Tanto que me doem as forças de tanto o querer.
E luto.
Luto tanto que de mim foge o futuro, com medo de me ter.
Ambiciono.
E vou à procura como quem perde a alma na paisagem .
Sonho.
E quase me acredito de que a sorte não passa de uma miragem.
Então procuro.
E nada é tão forte que me faça perder da vontade de ganhar.
E vou longe, fundo, como só eu sei
Na ânsia desenfreada de o conseguir desvendar.
Porque sou forte, acredito
E peço, e rezo e suplico.
E porque sou nada
Espero, resigno-me e no fim...
Grito.

segunda-feira, novembro 21, 2011

Morrer na praia

O sal na boca corta-me os lábios finos e secos. O aroma a maresia é putrefacto e enoja-me. A areia, ao vento, toma rumos de nortada e corta-me a face como navalhas afiadas, como picos de rosas secas. No corpo não tenho roupas, nas mãos não tenho anéis. Numa poça de água vejo-me e não sou nada. Pequena. Desprovida. Despida. As ondas batem lá ao fundo, cinzentas e revoltas. Gaivotas emitem ruídos como gritos, passeiam junto à areia em busca de alimento. E eu arrasto-me. Sem forças. Sem pernas nem mãos. Sem ser ninguém, rebolo na areia molhada. Os grãos são muitos e penetram as entranhas, envolvem os cabelos molhados e suados. Cansados. E são tantos e tão pegajosos que não descolam. Não secam nem molham. Tapam-me as pálpebras, as narinas e a boca e impedem-me de respirar. Ao longe, as aves que até agora passeavam junto ao espraiar das ondasm fazem-se ouvir cada vez menos, cada vez menos, cada vez menos. As ondas morrem lá ao fundo, onde não há céu, não há mar nem praia. E o vento é cada vez menos forte. Os olhos já não abrem e o coração quase nem bate. Aos poucos deixo-me ir sem resistir. De nada vale.

terça-feira, outubro 11, 2011

Arrumar a vida

Arrumar a vida como quem organiza gavetas, de papéis velhos e rasgados a recordações antigas e esquecidas.
Arrumá-la em prateleiras vazias, repletas de sims e nãos, de bons e maus, como quem limpa espelhos partidos.
Arrumar os dias em pedaços, desfeitos em desencontros, roídos por um tempo que não passa.
Arrumar o passado por debaixo do tapete rasgado, que ninguém pisa e ninguém calca, que ninguém sacode e ninguém lava, que existe por existir e não para ser lembrado.
Arrumar o que fui e o que não sou em páginas em branco de um livro que nunca escrevi e, no fim, saber que nada do que sou é meu, nada do que é meu me pertence e nada, a não ser um nada profundo, é fruto do meu querer.
Arrumar a vida é como lavar lençóis brancos ao vento. Deixá-los secar em contratempo, sem esperas e sem procuras. É aguentar com a corrosão alva e mesmo assim saber viver com desencontros e desilusões.

quinta-feira, agosto 04, 2011

Ilusão

doce como um gelado no verão, chegas e apoderas-te de uma existência que não é tua nem minha. que me deram. como quem dá rosas em dias de chuva.
depois ficas. e amadureces. como quem rega árvores de fruto e de frutas que não crescem, não são vermelhas e não têm açúcar.
vais estando, ocupando os dias e as noites. e quando já nem te quero, já és mais do que real. és minha. és vida. 
impertinente e inconveniente. estás. vestes de manto branco cintilante as horas do dia que não quero viver e apagas com borracha branca e sem mancha os amargos e os intragáveis que não quero comer.
adoro-te e venero-te no fim. como se Deusa fosses, como se real te achasse. e quando te faço minha, te deito na minha cama e te dou a minha vida, és cruel e maliciosa. sais pela porta que fechei, com a chave que não te dei e pelo caminho que não te tracei.
vais embora. comigo só o rasto e a sensação. tomara que não fosses uma só e dura ilusão.

quarta-feira, julho 13, 2011

Nada

Nada cá dentro mexe, salta ou agonia.
Nada cá dentro grita, sente ou arrepia.
Nada cá dentro suspira, aflige ou faz rir.
Nada cá dentro encanta, alegra ou faz sorrir.
Nada que vem de dentro é suficiente forte para apagar memórias
Nada que vem de fora pode dar força para fazer escrever
Nada cá dentro é motivo para as minhas estórias,
Nada cá dentro é fogo, lume, ou faz sofrer.
De dentro vem a paz que sonhei,
De dentro vem o fim da dor que esperei,
De fora apenas o vento que bate na face,
Que sussurra ao de leve o desenlace,
E garante que o crer pode ser rei.

segunda-feira, maio 09, 2011

Deus

Acreditei em ti quando tudo em mim era cepticismo,
Chorei por ti por me sentir perto do abismo.
Acreditei em ti mesmo quando pensei que não
E quando todos me diziam que existias eu não soube dar-lhes razão.
Falei contigo, mesmo sem saber se me ouvias,
Pedi-te com toda a força que me desses a maior das alegrias.
Depois fui fraca, despojei-te, desmenti-te, virei-te as costas
Berrei contigo e comigo, fui dura, desci encostas
E quando regressei, por força da natureza
Foste Homem, foste voz, foste certeza.

Obrigada.

sexta-feira, abril 29, 2011

Rezei

Rezei.
Com todas as forças e contra todos os cepticismos.
Rezei num acto de fé sublime, que eu nem conhecia ter.
Rezei numa força incontrolável, que alguém me deu e eu não soube esconder.
Rezei de olhos fechados e coração aberto,
Rezei de concentração emocionada e de olhar deserto
Rezei sem palavras e sem controlo
Rezei num acto de consolo
Rezei porque nada mais resta
Senão a fé que não presta.
Que não é nada
Senão a enorme esperança de encontrar uma nova morada.

quarta-feira, abril 27, 2011

Acreditar.
Que tudo muda,
Que tudo volta,
Que tudo, um dia, volta ao pó e à cinza.
Acreditar, com a fé de quem crê cegamente
Que nada é nosso e a Deus pertence,
Que só ele conhece o amanhã,
E, num acto de desespero e gratidão irrefutável,
Nele entregar a vida, a sorte e o nada.
Acreditar,
Sem saber bem em quê,
Sem ter bem a força para,
Sem sequer saber o porquê.
Mas só acreditar,
Que na fé reside a esperança,
Que na ternura de uma lembrança,
Tudo pode um dia mudar,
Um dia e para sempre,
Sem nada nem porquês.

segunda-feira, abril 25, 2011

Nunca se perde o que nunca se teve

Por muito que o quisesse
E o sonhasse
Sabia que nunca o teria.
Porque não era realmente meu.
Por muito que o desejasse
E até que por ele lutasse
Sei agora que nunca me pertenceu.
Por muito que tenha nascido da incerteza
Que tenha passado a fazer parte da minha natureza
Alguém, que não eu, o possa ter feito seu.
Agora partiu, livre e distante
Vai ficar arrumado bem longe do alcance
Atrofiado longínquo num canto da estante
Para que não o olhe, não o recorde, não o faça meu
Por no fundo, no âmago da verdade, sei que nunca me pertenceu.

São assim os sonhos,
mesmo aqueles que queremos muito.


Foto: aqui

terça-feira, março 22, 2011

Não vale nada

É como acordar a meio da noite, levar a mão aos caracóis do cabelo suados pela dor e perceber que tudo não passou de um sonho mau.
É como imaginar que a vida é boa demais para ser sofrida e chorada e finalmente perceber que afinal eu é que sou fraca demais para a aguentar.
É como querer que a mentira não exista e ao mesmo tempo vê-la suplantar a verdade, é como imaginar que tudo um dia pode mudar vê-lo a não mudar, é como acreditar que quando pensamos que o buraco é fundo demais para lá cairmos, já estamos tão afundados que não nos conseguimos encontrar.
É como crer que a palavra não vale nada e que só a atitude pode magoar. É como pensar que a amizade é o bem mais precioso que podemos encontrar e, ao mesmo tempo, no meio de um sonho que só é mau porque nunca soubemos o que é bom, percebermos que nada no mundo é só nosso, nada no mundo é nosso fiel, nada no mundo é tão próximo de nós como apenas nós mesmos.
Ainda bem que existem sonhos maus para nos lembrarem que nem a dor de cortar o cabelo contra a nossa vontade é tão forte como a de não saber o que é o bem.
Mais vale sonhar. Acreditar e dormir. Porque a vida lá fora, aquela que nos criaram e obrigaram a viver, a mesma em que nos cortam o cabelo sem permitirmos, essa, não vale nada.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Paz

A tua vida, e a minha, por conveniência, tem sido uma luta constante.
Não daquelas de batalha, arma em punho e blindagem de ferro.
Não de gritos, de sangue nem de dores supremas.
Mas daquelas que moem por dentro, que se revestem de pistolas de dor, de lanças de sofrimento e que, como uma chaga, vão ardendo, drenando, escorrendo fios de revolta que não falam, não sentem, não gritam, mas matam.
E um dia ela vai-nos matar. Tu vais ver. Vai vencer-nos, vai afastar as nossas mãos. Só depois, sem que nada nem ninguém seja mais forte, só nesse depois é que vamos ter paz.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Depende de ti

Às vezes acho que é tão fácil ser feliz que embirro com o mundo e lhe viro as costas.
Zangada com ele, bato com a porta, atiro-lhe palavras más e grito em barafustos mudos dores minhas e dele.
Sento-me no chão, deixo as lágrimas caírem em lenço vazio, que é branco como um manto de neve e frio como os dias amargos de Outono. Faço tanta força nos olhos e nos lábios que as rugas que não tenho, mas que me marcam o coração, denunciam espasmos de velhice, rastos de um cansaço latente de quem ainda quase nada viveu.
Ainda no chão, sou só. Imagino-me despejada de desejos, branca de ilusões e atiro contra o vidro os sonhos que criei. Lá fora, o mundo virou-me as costas. Do lado de lá da porta que bati e não abri, sei que continua prostrado, magoado com as minhas palavras duras. Mas não volto atrás. Não me arrependo, não esqueço o rancor e não apago a amargura.
Lá fora, onde está o mundo e onde a minha vida se estende para lá do paraíso que não conheço, sei que também lá está a felicidade. Aquela fácil e que podia estar ao alcance de um beijo mudo, de um toque exímio, de um suspiro.
Mas que não depende de mim. Por isso, mundo, se algum dia te lembrares que aqui dentro há um coração que bate triste e chora desilusões, não te esqueças que ela ainda me espera. E é tão fácil trazê-la cá. A felicidade. Aquela fácil. Aquela que depende de ti.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Quero chorar


Quero chorar. E tanto que o peito é pequeno para tanta emoção. Quero abri-lo, libertá-lo, fazê-lo voar e apenas chorar.
Quero chorar. Como se não houvesse amanhã. Chorar e não dizer porquê. Só chorar como se a vida fosse o choro tremendo da mais dura crueldade e finalmente chorar porque nada no mundo é tão grande que me possa impedir.
Chorar para mim, chorar por ti e por aquilo que a vida nos faz. Chorar porque nada mais importa quando as lágrimas retidas são tantas que formariam cursos infinitos de águas transparentes. E chorar sem soluçar, chorar sem temer que me ouçam, chorar sem sentir o sal das lágrimas e finalmente chorar por acreditar que só a chorar a dor vai embora.
Chorar sem alívio e sem pena. chorar sem olhar ao espelho, sem sentir conforto, sem pensar se irá fazer bem. Chorar porque sim, porque não há motivo, ou porque, se o há, é tão duro e cruel que nem o choro é capaz de apagar.

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Gavetas cheias são rastos de passado


Abro a gaveta e procuro memórias passadas.
Há fotografias, blocos de notas, medalhas, porta-moedas. Há um número infinito de coisas que se atropelam, se escondem e se tapam umas às outras como folhas secas e verdes no final do Verão. Há sorrisos escondidos, laços perdidos, restos de músicas velhas. Há palavras rasgadas, agendas acumuladas, óculos de olhos que não vêem.
Na vida, como nas gavetas que tenho no quarto, também as memórias são muitas, também os bens mais do que imensos, também a vontade de os rasgar e desfazer mais do que forte. Também as velas ardidas queimam o coração, também as canetas perdidas escrevem uma canção, também as moedas esquecidas perdem valor.
Mas na hora de avaliar para que servem, na hora de pensar se as quero preservar, na hora de dançar ao som do vento e as atirar para longe... não as largo, não as perco, não as deixo voar.
Porque de inúteis têm tanto como de minhas. E de rastos do passado são mais do que valiosas.