quarta-feira, julho 13, 2011

Nada

Nada cá dentro mexe, salta ou agonia.
Nada cá dentro grita, sente ou arrepia.
Nada cá dentro suspira, aflige ou faz rir.
Nada cá dentro encanta, alegra ou faz sorrir.
Nada que vem de dentro é suficiente forte para apagar memórias
Nada que vem de fora pode dar força para fazer escrever
Nada cá dentro é motivo para as minhas estórias,
Nada cá dentro é fogo, lume, ou faz sofrer.
De dentro vem a paz que sonhei,
De dentro vem o fim da dor que esperei,
De fora apenas o vento que bate na face,
Que sussurra ao de leve o desenlace,
E garante que o crer pode ser rei.

segunda-feira, maio 09, 2011

Deus

Acreditei em ti quando tudo em mim era cepticismo,
Chorei por ti por me sentir perto do abismo.
Acreditei em ti mesmo quando pensei que não
E quando todos me diziam que existias eu não soube dar-lhes razão.
Falei contigo, mesmo sem saber se me ouvias,
Pedi-te com toda a força que me desses a maior das alegrias.
Depois fui fraca, despojei-te, desmenti-te, virei-te as costas
Berrei contigo e comigo, fui dura, desci encostas
E quando regressei, por força da natureza
Foste Homem, foste voz, foste certeza.

Obrigada.

sexta-feira, abril 29, 2011

Rezei

Rezei.
Com todas as forças e contra todos os cepticismos.
Rezei num acto de fé sublime, que eu nem conhecia ter.
Rezei numa força incontrolável, que alguém me deu e eu não soube esconder.
Rezei de olhos fechados e coração aberto,
Rezei de concentração emocionada e de olhar deserto
Rezei sem palavras e sem controlo
Rezei num acto de consolo
Rezei porque nada mais resta
Senão a fé que não presta.
Que não é nada
Senão a enorme esperança de encontrar uma nova morada.

quarta-feira, abril 27, 2011

Acreditar.
Que tudo muda,
Que tudo volta,
Que tudo, um dia, volta ao pó e à cinza.
Acreditar, com a fé de quem crê cegamente
Que nada é nosso e a Deus pertence,
Que só ele conhece o amanhã,
E, num acto de desespero e gratidão irrefutável,
Nele entregar a vida, a sorte e o nada.
Acreditar,
Sem saber bem em quê,
Sem ter bem a força para,
Sem sequer saber o porquê.
Mas só acreditar,
Que na fé reside a esperança,
Que na ternura de uma lembrança,
Tudo pode um dia mudar,
Um dia e para sempre,
Sem nada nem porquês.

segunda-feira, abril 25, 2011

Nunca se perde o que nunca se teve

Por muito que o quisesse
E o sonhasse
Sabia que nunca o teria.
Porque não era realmente meu.
Por muito que o desejasse
E até que por ele lutasse
Sei agora que nunca me pertenceu.
Por muito que tenha nascido da incerteza
Que tenha passado a fazer parte da minha natureza
Alguém, que não eu, o possa ter feito seu.
Agora partiu, livre e distante
Vai ficar arrumado bem longe do alcance
Atrofiado longínquo num canto da estante
Para que não o olhe, não o recorde, não o faça meu
Por no fundo, no âmago da verdade, sei que nunca me pertenceu.

São assim os sonhos,
mesmo aqueles que queremos muito.


Foto: aqui

terça-feira, março 22, 2011

Não vale nada

É como acordar a meio da noite, levar a mão aos caracóis do cabelo suados pela dor e perceber que tudo não passou de um sonho mau.
É como imaginar que a vida é boa demais para ser sofrida e chorada e finalmente perceber que afinal eu é que sou fraca demais para a aguentar.
É como querer que a mentira não exista e ao mesmo tempo vê-la suplantar a verdade, é como imaginar que tudo um dia pode mudar vê-lo a não mudar, é como acreditar que quando pensamos que o buraco é fundo demais para lá cairmos, já estamos tão afundados que não nos conseguimos encontrar.
É como crer que a palavra não vale nada e que só a atitude pode magoar. É como pensar que a amizade é o bem mais precioso que podemos encontrar e, ao mesmo tempo, no meio de um sonho que só é mau porque nunca soubemos o que é bom, percebermos que nada no mundo é só nosso, nada no mundo é nosso fiel, nada no mundo é tão próximo de nós como apenas nós mesmos.
Ainda bem que existem sonhos maus para nos lembrarem que nem a dor de cortar o cabelo contra a nossa vontade é tão forte como a de não saber o que é o bem.
Mais vale sonhar. Acreditar e dormir. Porque a vida lá fora, aquela que nos criaram e obrigaram a viver, a mesma em que nos cortam o cabelo sem permitirmos, essa, não vale nada.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Paz

A tua vida, e a minha, por conveniência, tem sido uma luta constante.
Não daquelas de batalha, arma em punho e blindagem de ferro.
Não de gritos, de sangue nem de dores supremas.
Mas daquelas que moem por dentro, que se revestem de pistolas de dor, de lanças de sofrimento e que, como uma chaga, vão ardendo, drenando, escorrendo fios de revolta que não falam, não sentem, não gritam, mas matam.
E um dia ela vai-nos matar. Tu vais ver. Vai vencer-nos, vai afastar as nossas mãos. Só depois, sem que nada nem ninguém seja mais forte, só nesse depois é que vamos ter paz.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Depende de ti

Às vezes acho que é tão fácil ser feliz que embirro com o mundo e lhe viro as costas.
Zangada com ele, bato com a porta, atiro-lhe palavras más e grito em barafustos mudos dores minhas e dele.
Sento-me no chão, deixo as lágrimas caírem em lenço vazio, que é branco como um manto de neve e frio como os dias amargos de Outono. Faço tanta força nos olhos e nos lábios que as rugas que não tenho, mas que me marcam o coração, denunciam espasmos de velhice, rastos de um cansaço latente de quem ainda quase nada viveu.
Ainda no chão, sou só. Imagino-me despejada de desejos, branca de ilusões e atiro contra o vidro os sonhos que criei. Lá fora, o mundo virou-me as costas. Do lado de lá da porta que bati e não abri, sei que continua prostrado, magoado com as minhas palavras duras. Mas não volto atrás. Não me arrependo, não esqueço o rancor e não apago a amargura.
Lá fora, onde está o mundo e onde a minha vida se estende para lá do paraíso que não conheço, sei que também lá está a felicidade. Aquela fácil e que podia estar ao alcance de um beijo mudo, de um toque exímio, de um suspiro.
Mas que não depende de mim. Por isso, mundo, se algum dia te lembrares que aqui dentro há um coração que bate triste e chora desilusões, não te esqueças que ela ainda me espera. E é tão fácil trazê-la cá. A felicidade. Aquela fácil. Aquela que depende de ti.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Quero chorar


Quero chorar. E tanto que o peito é pequeno para tanta emoção. Quero abri-lo, libertá-lo, fazê-lo voar e apenas chorar.
Quero chorar. Como se não houvesse amanhã. Chorar e não dizer porquê. Só chorar como se a vida fosse o choro tremendo da mais dura crueldade e finalmente chorar porque nada no mundo é tão grande que me possa impedir.
Chorar para mim, chorar por ti e por aquilo que a vida nos faz. Chorar porque nada mais importa quando as lágrimas retidas são tantas que formariam cursos infinitos de águas transparentes. E chorar sem soluçar, chorar sem temer que me ouçam, chorar sem sentir o sal das lágrimas e finalmente chorar por acreditar que só a chorar a dor vai embora.
Chorar sem alívio e sem pena. chorar sem olhar ao espelho, sem sentir conforto, sem pensar se irá fazer bem. Chorar porque sim, porque não há motivo, ou porque, se o há, é tão duro e cruel que nem o choro é capaz de apagar.

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Gavetas cheias são rastos de passado


Abro a gaveta e procuro memórias passadas.
Há fotografias, blocos de notas, medalhas, porta-moedas. Há um número infinito de coisas que se atropelam, se escondem e se tapam umas às outras como folhas secas e verdes no final do Verão. Há sorrisos escondidos, laços perdidos, restos de músicas velhas. Há palavras rasgadas, agendas acumuladas, óculos de olhos que não vêem.
Na vida, como nas gavetas que tenho no quarto, também as memórias são muitas, também os bens mais do que imensos, também a vontade de os rasgar e desfazer mais do que forte. Também as velas ardidas queimam o coração, também as canetas perdidas escrevem uma canção, também as moedas esquecidas perdem valor.
Mas na hora de avaliar para que servem, na hora de pensar se as quero preservar, na hora de dançar ao som do vento e as atirar para longe... não as largo, não as perco, não as deixo voar.
Porque de inúteis têm tanto como de minhas. E de rastos do passado são mais do que valiosas.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

2011, enquanto te abraço

Bate a meia noite e as palavras são as mesmas. Os sorrisos os mesmos. A euforia de sempre. Os olhares têm emoção e há beijos apaixonados, abraços emocionados, desejos mais ou menos sentidos.
Enquanto te abraço com a força que só o amor tem, nem sei se acredito no que não te digo. Nem sei se penso no que sinto. Nem sei se devo ou não formular um desejo.
Enquanto te abraço e o mundo à volta deixa de fazer sentido, nem sei se devo dizê-lo, nem sei se deixo que o silêncio fale por mim.
Enquanto te abraço e deixo de te olhar nos olhos por instantes, passo em flashback quase tão rápido como falo os momentos que passei contigo em dias idênticos, que passam e se repetem vezes sem conta, anos sem fim.
Enquanto te abraço e o mundo pára, a contagem decrescente fala por mim, antecipa o fim de um ano velho e mau, despede-se de dias únicos e prepara o nascer de um novo amanhã.
Enquanto te abraço quase que acredito que amanhã será melhor, quase que sou imensa de alegria e esperança, quase que sei que vale a pena esperar e desejar.
Mas depois, quando te afastas e os espumantes estalam, quando os gritos e o barulho invadem o ambiente e a minha alma, também o meu coração deixa de acreditar, também a mente se perdem em viagens, também a razão chega e me pede para não desejar nada. Não querer nada. Não acreditar em nada.

terça-feira, novembro 09, 2010

Se

Se a perfeição tivesse sabor, seria agri-doce como trago de comida chinesa. Saberia a mel e amêndoas doces, a gelado de limão regado a chocolate bem quente.
Se a perfeição falasse, diria palavras de sol e de lua, gritaria frases mudas de loucura, pediria aos deuses para não se esfumar nas nuvens de algodão que o céu criou.
Se a perfeição fosse mulher, teria cabelos de mar, pele de criança recém-nascida e aroma de rosas brancas.
Se a perfeição soubesse cantar, teria voz de soneto de Bach, violinos afinados por Mozart, sinfonias de anjos a encher o ouvido cansado.
Se a perfeição pudesse falar, diria que eram horas de acordar, que o dia estava azul, a chuva havia partido para um lugar bem longe da minha mente e o sol raiava agora sim e para sempre.
Se a perfeição, de facto, existisse, seria minha e só minha, viveria aqui onde os campos são verdes, os universos profundos e os sonhos maiores do que o mundo.
Se a perfeição vivesse, seria boa como o som do amanhã que nunca há-de chegar.

terça-feira, novembro 02, 2010

Anulei-me

Passei a viver por ti.
Como se tivesses partido para longe e deixado comigo o teu coração.
Passei a sentir por ti.
Como se a dor fosse minha e a luta e a batalha eu as trilhasse sozinha.
Passei a lutar por ti.
Como se a vitória fosse a minha única ambição e o sabor de vencer a minha única solução.
Agora que não lutas, não batalhas e não vês futuro, que parte de mim irá sorrir?

segunda-feira, outubro 18, 2010

Fazes-me falta

Detesto frases feitas, mas porra. Fazes-me falta.
E tanta que podia gritar ao mundo que odeio saber que a solidão se aninha aos meus pés nas noites frias, nos dias serenos, quando o barulho aqui à volta é tão abafado que parece o som do comboio da Granja em dias de tempestade. Falo com ela. Digo-lhe que sei viver sozinha, que sei trabalhar sem o teu apoio, que sei chegar ao fim do dia sem falar contigo, sem te dizer que "está tudo bem" e ouvir o teu silêncio. E gostar dele. E rir-me dele. E ouvir-te rir do lado de lá. Ou barafustar. Ou então odiar o teu lado de mundo perdido, de mundo partido, de mundo traído. O teu lado tão real e tão cruel de vida injusta, de vida ingrata, de vida durida.
E falo com ela. Com a solidão. Porque quando tu não estás é ela quem me faz rir. É ela quem lancha comigo e me chateia por comer tantas bolachas. É ela quem gosta de mim pela manhã, com cara de sono. É ela quem me arruma os cabelos, me beija a testa e me diz que não gosta de mim com um sorriso trocista e doce e os olhos a cintilar. Quando tu não estás é ela quem me pede para conduzir, porque está com preguiça, é ela quem me diz que chega cedo pela manhã e aparece só depois das 11h. É ela quem me fala de planos pontuais e os desmarca no momento exacto.
Sabes. É ela quem me ouve a dizer que odeio o que faço, que odeio ser submissa, que odeio viver os dias como noites e as noites como infinitos.
Quando tu não estás acho que é ela quem me faz feliz. Porque a felicidade depende do aqui e do agora. E, se tu não estás, é ela quem me ensina a amá-la. Tanto mas tanto ao ponto de já não duvidar da falta que me fazes.

segunda-feira, outubro 11, 2010

Medo

Hoje acordei quando a manhã ainda era uma criança. Ainda mal os primeiros raios de sol se avistavam, ainda as primeiras vidas acordavam para o primeiro dia da semana.
Acordei com o coração saltitante e o frio na barriga que senti outrora, em momentos especiais que me faziam medo.
Sempre lidei mal com a novidade, o desconhecido, o medo. O medo da dor, o medo de errar e o medo de falhar.
Não sei qual destes dois me aperta mais o estômago, mas se os últimos poderão ou não depender de mim, está certo que o primeiro de todo não dependerá. Por isso acho que, por exclusão de partes, é esse o que mais me assusta. O medo da dor.
E pronto. Estou com medo. Acho que não o sentia nem o admitia há demasiado tempo, quando as mãos eram pequenas e o coração enorme para tanta vida. Agora as mãos são maiores e a vida mais curta, o coração apertado já quase não tem espaço para mais sonhos, que entram e entram e nunca saem.
Porque eu nunca desisto, e eles nunca se realizam. Então vão ali ficando, como num frigorífico gelado de recordações e vontades, num canto esquecido mas sempre lembrado do esquecimento à espera que um dia ganhem asas e voem. Aquelas asas que nunca me disseram onde se compram.
Porque se dissessem, eu ia lá, juro que ia. Sem medo. E sem frio na barriga.

sexta-feira, setembro 24, 2010

Dúvida


Chegas e não bates à porta.

Entras, fria e distante e sentas-te. Sorris.

Ali mesmo, junto a mim, à minha secretária feita de sonhos e ilusões, coisas doces e noites boas.

Não falas nem vês. Só escutas. Só olhas. E o teu olhar é tão penetrante e atroz que me congela os dedos. Não posso escrever mais. Impedes o meu raciocínio de arrancar. Atrofias, por fim, toda a máquina que me faz produzir.

Então páro e finalmente evito mais o ter de te ignorar.

Falas comigo em linguagem de amor, de vida, de crueldade. Falas de mim, do meu passado, do meu presente. Bebes água porque não te queres deixar embriagar e atiras para o ar a arma que sabes que me deixará no chão.

Dizes adeus e sorris, com o mesmo sorriso que me atiraste no momento em que entraste. Só que agora sei do que te ris, sei do que troças, sei o prazer que te dá ver-me só.

Fecho-te a porta com raiva doce, com lágrimas de sal e com sapatos de veludo.

Ali, na cadeira onde te sentaste, que tem rodas e é fria como a Serra da Estrela em Janeiro, sentou-se o meu futuro. O presente que me deixaste. Queres que fale com ele e lhe pergunte se quero que fique.

Mas não quero. Nem falar, nem deixá-lo ficar. Quero que parta contigo e me deixe sozinha. Eu sei que ele já não é o meu melhor amigo. O Futuro.


Foto: aqui

quinta-feira, setembro 16, 2010

Fazer conversa... com conteúdo

- Você é jornalista. E gosta do que faz?

- Gosto de ser jornalista. Mas não gosto do que faço.

(Quero mudar de vida, porra)

Gostar muito

Gostar muito não basta.
É preciso ser-se reconhecido.
Gostar muito é pouco.
Quando o nosso valor é esquecido.
Gostar muito é nada.
Quando a dedicação é respondida à facada.
Gostar muito ou pouco é mesmo inútil
Quando tudo em redor perde o sentido e se torna fútil
Quando as paixões são abafadas pela incapacidade
E quando o nosso maior sonho fica reduzido à imbecilidade.
Mais vale não gostar, ou aprender a deixar de gostar
De tudo aquilo que um dia se aprendeu a adorar.

quarta-feira, setembro 01, 2010

A aventura, os limites e o desconhecido Caminho de Santiago Português


São 17h e o calor aperta forte. A mochila já está às costas, o chapéu na cabeça e o equipamento a rigor. Na mão, a garrafa de água e, no peito, uma ansiedade incontrolável. Parto. Disso tenho a certeza. Há despedidas, acenos e “boas sortes”. Há “tenham cuidados”, “até breve” e, o pior de todos os conselhos, “se não aguentares, desiste”. O Caminho de Santiago começa a ser desbravado nos limites da aventura e nas bermas do auto-conhecimento. Nos próximos dez dias, muitos quilómetros serão feitos, muitas culturas trespassadas e, acima de tudo o resto, muitos limites serão postos à prova. E irão vencer. Até breve. 250 quilómetros separam-me do padroeiro.


“Agora não há volta a dar”, penso enquanto inicio a primeira subida do dia. Perosinho é hoje uma terra estranha, que perde a familiaridade de tantos anos de vida, e se começa a revelar o início de uma grande incógnita. As primeiras gotas de suor começam a cair à medida que se aproxima a temida Serra de Canelas.
A calçada romana é fresca e plena de árvores. Do cimo avistam-se abertas que deixam vislumbrar a terra que deixo. Continuo a caminhar. Conheço o lugar, os cheiros da terra, a força do caminho íngreme. A mochila, que até agora nem sentia, começa a recordar-me que não estou só. Há mais seis quilos de peso que se fazem sentir sobre os ombros.
Uma hora depois chego a um dos pontos mais altos da etapa: Alto das Torres. Paro para o primeiro abastecimento de água. Sei que até Santo Ovídio a inclinação será contrária à vontade do corpo. Os gémeos doem e começam a sentir-se os primeiros sinais do peso sobre os pés: “Acho que estou a fazer bolhas”. O tendão de Aquiles está vermelho e saem os primeiros pensos rápidos. Chegava o primeiro contratempo e, com ele, o lado menos bom da peregrinação.
A chegada ao Porto foi menos feliz do que o esperado, com o desalento da falta de indicações de percurso. Ao embater de frente com a Igreja da Lapa, ganho também noção de que estou perdida. Não há continuação, não há informação, não há solução. Procuro quase desesperadamente uma seta amarela (o Caminho de Santiago está assinalado por setas amarelas pintadas à mão). Sem sucesso. Passa das 20h e os comerciantes já recolheram. O Porto é perigoso a esta hora e decido parar por ali. Um prego em pão parece-me perfeito para me recompensar o esforço indecifrável das primeiras horas de aventura. A noite seria na Pousada da Juventude. E seria mal dormida. Temida. De muita reflexão.


“Serei capaz?”
As dores nas costas com que o primeiro dia de percurso me brindou avisavam que o dia dois não seria etapa fácil. Percebo que a perfeita regulação da mochila poderia ser a chave da superação e, aí, retiro da mente o enorme peso do medo. Aos poucos, a bagagem passa a fazer parte de mim e a cair num poço de esquecimento que apenas bate à porta da lembrança com pequenos picos de dor.
Despeço-me do feio cenário citadino do Porto, atravesso o equivalente centro da Maia e percebo que a decisão de seguir pela Ponte de Moreira, evitando a travessia da perigosa EN13, revelar-se-ia uma aposta ganha. O aproximar da ruralidade das aldeias maiatas faz aumentar o ânimo, que só decairia perto da hora do almoço, com a consagração: uma bolha no pé esquerdo. O diâmetro de cerca de dois centímetros deitava por terra toda a confiança ganha de manhã.
Iniciava-se a verdadeira peregrinação. Fazer a vontade de chegar esquecer a dor física e o sacrifício começou a entrar na rotina e, minutos mais tarde, não havia praga que retirasse o sorriso do rosto. Encontro pelo caminho os primeiros peregrinos. Falam alemão e espanhol e iriam encontrar-me no antigo e pouco acolhedor Albergue de São Pedro de Rates. À noite, o sentimento é duro, mas de vitória. Consegui. 37 quilómetros cumpridos em pouco mais de dez horas de caminho era mesmo uma grande bandeira de vitória.


“A sofrer, a sofrer, mesmo sem poder”
A aparente curta distância da terceira etapa permitia fazê-la com alguma calma. Mas o descanso que me acompanhou desde as 6h cedo começou a pesar. As pernas não mexem ao ritmo do dia anterior e as poucas horas de sono reflectem-se na grande dificuldade em romper a etapa de pouca dificuldade. Mesmo assim, pouco passa das 10h quando se dá a chegada a Barcelinhos. Convenço-me de que a etapa está praticamente concluída, mas a informação de que ainda faltam mais dez quilómetros para atingir o Albergue da Recoleta, em São Pedro de Fins, atira por terra o alívio. Rapidamente os 15,5 quilómetros da etapa se transformaram em dolorosos 25. Sob um sol irrespirável e a trepar uma inclinação quase impraticável, eis que se dá a chegada ao albergue. As excelentes e modernas condições da estalagem fazem esquecer o sofrimento da etapa. Mas a descida brusca da tensão arterial relembra que o corpo também se queixa, quando o esforço é muito.
O dia seguinte seria novamente de dificuldade pouco acentuada. Entre Barcelos e Ponte de Lima, as pingas de orvalho molharam nas primeiras horas da manhã, mas dissiparam-se à medida que se aproximava a bonita cidade minhota. Batiam as 12h quando chegava a Ponte de Lima e cinco horas distavam até à abertura do Albergue de Peregrinos. Quando as portas se abrem, o paraíso do descanso e das excelentes condições espreita. Há peregrinos de diversas nacionalidades. Alemães, canadianos, franceses, italianos, espanhóis e brasileiros. Portugueses só nós. Mas o convívio acabaria mesmo por se revelar uma das mais interessantes ofertas do caminho.


“A Serra da Labruja sobe-se de nariz no chão”
Disse-me o simpático e familiar hospedeiro de Ponte de Lima, aconselhando-me a descansar a meio da etapa que já levava esboçada. Decidi partir à aventura para aquela que se revelaria a pior e mais dolorosa etapa de todo o caminho. O pico da dificuldade dava-se no mesmo dia em que a dor no osso da bacia que me massacrava desde o dia anterior começava a tornar-se atrofiante. Não foi. E a Serra da Labruja surgiu. Medrosa e assustadora. Inclinada e quase impraticável. Desesperante e quase motivadora de desistências. Mas não me venceu.
A beleza rural dos primeiros quilómetros do dia foi dando lugar a uma paisagem infinita de pinhal, onde não se avistava céu nem fim, e onde o pânico poderia surgir a qualquer momento. E vieram as tão temidas subidas. O coração bateu forte. E os joelhos gritaram. E o nariz quase tocou mesmo no chão. E elas repetiram-se, em inclinações impensáveis, em pisos de pedras incertas e dolorosas, vezes sem conta, batendo à porta do desespero. As pernas tremiam e o suor escorria. Mas venci. E Rubiães surgiu pequena e desoladora. Podia ter ficado por ali, acomodar-me no albergue existente. Mas decidi duplicar o número de quilómetros. Mais 20 me esperavam até Valença.
Não foram difíceis comparados com os primeiros quilómetros do dia, mas também nada mais o seria, depois de ter sido cruzada a dolorosa Serra da Labruja. Para trás deixei alemães e espanhóis. Só nos acompanharam os rostos conhecidos dos brasileiros, dos italianos e de um espanhol, que se revelaria um fiel amigo do caminho.


Adeus Portugal
É domingo. Saí terça-feira de casa e despeço-me agora de Portugal. Embora os 34 quilómetros da etapa de hoje não me permitissem facilitar, não previa uma jornada dura. Mas fiz mal em confiar no traçado do mapa e pior ainda nas boas horas de descanso, porque essas não foram capazes de preparar suficientemente o físico para a etapa seguinte à “rainha”. Às 6h15, Valença era fria e pouco atraente, enquanto Tui sorridente e desafiador a conhecer. Mas era domingo, dia sagrado na vizinha Espanha. Nada se passava.
Os caminhos verdes da bonita cidade espanhola deram lugar ao asfalto irregular, preponderante ao longo da jornada, fazendo os pés fervilharem. A chegada ao Porriño, por uma infinita zona industrial, acentuava o desinteresse pelo percurso do dia. Mas também de surpresas bonitas se fez o Caminho. À chegada à pequena localidade de Moz, onde parei para carimbar a credencial que testemunhou a minha passagem pelas diversas localidades, eis que um residente se confessa português e natural de Olival. Sorri pela ironia do destino e segui viagem em direcção a Redondela, onde chegaria cerca das 15h. Os últimos quilómetros do dia recordavam que quando o cansaço é muito já não há descidas boas nem subidas más. E as excelentes instalações do Albergue, numa antiga torre no centro da cidade, foram mal aproveitadas pelas poucas horas de sono. Nessa noite Espanha vencia o Mundial de Futebol e centenas de foliões infernizavam o descanso dos peregrinos.
Pontevedra, Caldas de Reis e Teo seriam os destinos das etapas seguintes. Santiago de Compostela estava de facto cada vez mais perto e já não havia mal capaz de desafiar a desistência. Mesmo assim, sinto as pernas a reflectirem os mais de cem quilómetros já percorridos. No destino a Pontevedra cruzo uma das mais bonitas localidades do caminho: Arcade era típica e envergonhada por entre as ruas inclinadas e as casas modernas e cuidadas. A chegada ao fim da etapa brindou com a paisagem descuidada e desoladora que assiste à entrada de quase todas as cidades espanholas. Mas Pontevedera é bonita e tradicional, com ruas cuidadas e comerciais e dezenas de citadinos a aproveitarem as horas do final da tarde nos imensos bares de “tapas e cañas”.
A Caldas de Reis chegaria no dia seguinte, após uma etapa verde e airosa, com pouco grau de dificuldade, permitindo afastar por mais tempo os pensamentos negativos e desfrutar mais do caminho. No percurso não vi alma humana. Por companhia, só o relaxante chilrear dos pássaros e o canto das quedas de água. Caldas de Reis, vila termal e acolhedora, marcou a diferença pelas caricatas condições do Albergue, adaptado às antigas instalações daquilo que parecia ser um restaurante desactivado.
Os 25 quilómetros da penúltima etapa começam a assustar à medida que se aproxima o fim. O cansaço dá de si nas primeiras horas do dia, sem ser capaz de ouvir o despertador. Apesar do nervosismo do atraso, o bom ritmo permite chegar a Padrón, cidade onde chegou, de barco, o corpo de Santiago, ao mesmo tempo que os peregrinos que haviam saído duas horas antes de mim. Abandonei a cidade antes de todos os outros e retomei o caminho. As aldeias foram-se sucedendo anónimas, em aglomerados de casas bonitas e rústicas, modernas e antigas, em ruas estreitas e sem trânsito. A Teo cheguei às 13h. Apesar da quase lotação do albergue, perdido no meio do nada, ainda encontrei uma cama para repousar. As parcas condições e a solidão da aldeia foram insignificantes, quando o coração já batia de ansiedade à espera da chegada do grande dia.


Enfim, Santiago
Quase não sou capaz de me recordar das ruas, dos caminhos, das árvores ou das pedras da calçada. A vontade de chegar era aqui mais forte do que nunca. O orgulho de ter conseguido alcançar 99 por cento do desafio era tamanho que abandonei o local de repouso ainda de noite. No meio dos pinhais escuros, nem a minha pequena lanterna era capaz de ajudar no caminho. Pouco importava. Nada temia, pois sabia que havia de chegar. Custasse o que custasse.
E custou, efectivamente. Porque perdi setas, avancei percursos e recuei novamente em busca do trilho certo. E encontrei-o. A manhã estava fria, mas pouco importava. Era hoje. Cheguei a Santiago quando o relógio da catedral espanhola batia as 8h. À porta do gabinete de apoio ao peregrino, já uma fila se formara à espera do carimbo final, aquele que certificava e testemunhava a chegada. Esperei. Nada mais havia a percorrer.
Havia, apenas, um misto de sentimentos. Não havia cansaço nem havia dores. Apenas uma grande alegria pela missão cumprida, pelo espírito de sacrifício e, em simultâneo, uma grande tristeza por ter chegado ao fim. Ter chegado ao fim a aventura, o desconhecido, o objectivo… o caminho.

segunda-feira, agosto 02, 2010

Coragem


Não se ganha nem se perde.

Tem-se. E pronto.

E quando se tem, há um ego cá dentro que cresce e aumenta como um balão. Sobe e rebenta e é grande. Sem dores nem sacrifícios. Sem gritos nem tormentos. Só porque existe. E porque quando existe quase nunca é ténue.

Depois, se não a há, é como que uma ponte suspensa feita de corda e madeira. Onde há buracos e farpas, frinchas abertas por onde se vê o infinito. O infinito no qual se pode cair se, por um momento, se corre o risco.

Pois é. É que quando ela existe, não se correm riscos. Arrisca-se e nunca se perde. Porque ela é grande e forte e imbatível.

Quando existe.

Só me resta atravessar a ponte suspensa e rezar (se é que ainda o sei fazer) para não colocar o pé em falso.

Imagem: aqui