Ilumina-me
(Pedro Abrunhosa)
Gosto de ti como quem gosta do sábado,
Gosto de ti como quem abraça o fogo,
Gosto de ti como quem vence o espaço,
Como quem abre o regaço,
Como quem salta o vazio,
Um barco aporta no rio,
Um homem morre no esforço,
Sete colinas no dorso
E uma cidade p’ra mim.
Gosto de ti como quem mata o degredo,
Gosto de ti como quem finta o futuro,
Gosto de ti como quem diz não ter medo,
Como quem mente em segredo,
Como quem baila na estrada,
Vestido feito de nada,
As mãos fartas do corpo,
Um beijo louco no porto
E uma cidade p’ra ti.
Enquanto não há amanhã,
Ilumina-me, Ilumina-me.
Enquanto não há amanhã,
Ilumina-me, Ilumina-me.
Gosto de ti como uma estrela no dia,
Gosto de ti quando uma nuvem começa,
Gosto de ti quando o teu corpo pedia,
Quando nas mãos me ardia,
Como silêncio na guerra,
Beijos de luz e de terra,
E num passado imperfeito,
Um fogo farto no peito
E um mundo longe de nós.
Enquanto não há amanhã,
Ilumina-me, Ilumina-me.
Enquanto não há amanhã,
Ilumina-me, Ilumina-me.
sexta-feira, junho 29, 2007
quinta-feira, junho 14, 2007
Elogio
Ao meu amigo Zé (quita)
É uma simples palavra, um simples sorriso, uma simples acção.
É como uma rosa branca que se recebe quando menos se espera.
É uma surpresa profunda.
É único. E é escasso.
Como o tempo.
Que passa e não volta.
Mas é bom.
E quando vem, é eterno e intemporal.
Um agradecimento profundo a ti. Serás sempre benvindo.
É uma simples palavra, um simples sorriso, uma simples acção.
É como uma rosa branca que se recebe quando menos se espera.
É uma surpresa profunda.
É único. E é escasso.
Como o tempo.
Que passa e não volta.
Mas é bom.
E quando vem, é eterno e intemporal.
Um agradecimento profundo a ti. Serás sempre benvindo.
segunda-feira, junho 11, 2007
Há uma música do povo
Há uma musica do Povo,
Nem sei dizer se é um Fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado…
Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser…
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver…
Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção…
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração…
Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido…
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!
Nunca fui grande fã de fado. Mas este supera qualquer sentimento.
Tenho pena de não poder dar-vos o som. Mas é sublime.
Poema de Fernando Pessoa e voz de Mariza.
Nem sei dizer se é um Fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado…
Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser…
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver…
Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção…
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração…
Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido…
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!
Nunca fui grande fã de fado. Mas este supera qualquer sentimento.
Tenho pena de não poder dar-vos o som. Mas é sublime.
Poema de Fernando Pessoa e voz de Mariza.
sábado, junho 09, 2007
Tu

Hoje sonhei contigo.
Foi real como um sono profundo.
Como se não vivesses no outro mundo
E me desses na tua face
A calma de um doce abrigo.
Eras tu, estou certa de que eras tu.
quarta-feira, maio 30, 2007
Desilusão

É uma faca que extravasa os nossos sentidos e perfura fundo.
Normalmente não contamos com ela, por isso é que é tão fria. Não nos dá tempo para nos defendermos nem tão pouco para nos protegermos. E devia.
Porque quando toca, dói.
E muito.
quarta-feira, abril 25, 2007
Paradoxos

Não gosto de dias de chuva nem de dias tristes.
Não gosto de estar longe de quem gosto ou de estar perto e sentir-me distante.
Não gosto de quebrar a rotina, mas também detesto fazer sempre a mesma coisa.
Não gosto de ouvir música com headphones porque adoro cantar nas alturas, mas nem sempre o posso fazer com o risco de ser observada.
E se há coisa que não gosto é que me olhem de cima abaixo.
Na verdade, não gosto de dar nas vistas.
Não gosto de hipocrisia e não gosto que me traiam.
Não gosto de ser fria e injusta, mas se não o for serão sempre hipócritas e irão sempre trair-me.
Não gosto de estar triste, mas sei que às vezes é preciso.
Afinal tudo aquilo de que não gosto acaba sempre por acontecer para que possa pensar naquilo que realmente é bom.
Paradoxos da vida!
segunda-feira, abril 02, 2007
Amadeus
Vi há dias um dos filmes de que jamais esquecerei.
"Tu que tanto gostas de música, não havias de perder o 'Amadeus'" - diziam-me.
De facto, não devia tê-lo perdido. Pelo menos por tanto tempo. Devia ter deixado que ele invadisse a minha vida bem antes.
Para perceber que a música não é um som, mas um dom, não uma escolha, mas uma vida...
"Tu que tanto gostas de música, não havias de perder o 'Amadeus'" - diziam-me.
De facto, não devia tê-lo perdido. Pelo menos por tanto tempo. Devia ter deixado que ele invadisse a minha vida bem antes.
Para perceber que a música não é um som, mas um dom, não uma escolha, mas uma vida...
sexta-feira, março 30, 2007
Folhas caídas no coração

Sinto que o que tinhamos começou a perder-se ao longo do tempo, como as folhas das árvores que caem lentamente no Outono e se espalham, por fim no chão.
Há um fio de vento que ninguém sabe de onde vem, porque ninguém o sente senão eu. Nem tu.
Penso que alguém o soprou só para mim, que todas as portas se fecharam e apenas uma janela ficou aberta para fazer a corrente de ar subir e atingir-me as costas, perfurar-me os pulmões cansados e atingir-me como um punhal.
Um punhal que fura mas que não mata. Que corrói mas que não faz sangrar. Que não se sente mas que atinge, magoa e me faz suspirar as folhas caídas no chão.
"Antes que venha o Inverno e disperse ao vento essas folhas [...] que por aí caíram, vamos escolher uma ou outra que valha a pena conservar, ainda que não seja senão para memória", dizia o Garret nas "Folhas Caídas".
Folhas de árvore, longe das folhas de papel. Que não rasgam e que às vezes são verdes ou castanhas. Mas são sempre leves, sempre soltas e livres.
Olho para o chão e apenas vejo pedaços folhas castanhas. Mortas. Ou estarão simplesmente a dormir? São folhas, caídas, adormecidas no chão.
Será que ainda vamos a tempo de as apanhar e colar nos ramos vazios?
Ou será no meu coração?
sexta-feira, março 09, 2007
Cansada

"Tudo me corre mal", é a frase que mais tenho proferido. Sabem o que é sentir que a vida nos vira as costas? Que alguém se esquece de nós e nos tranca o caminho da sorte?
Nem sei se tenho vontade de chorar ou de rir, mas supero-me ao mostrar aos outros a face que não consigo ver.
Aparento a alegria que não tenho, a satisfação que há muito não sinto e a companhia que preciso quando todos me abandonam.
Não estou só, mas sinto falta. E essa é a maior dor que se pode sentir. Olhar em redor, ter tudo e ao mesmo tempo não ter nada.
Ter dias que correm ambíguos, acontecimentos que se atropelam em marés de azar, tristeza que aumenta a olhos vistos e falta de uma alegria para me confortar.
"Estás cansada", disse-me hoje a minha mãe. Sim. Cansada da vida, cansada do desassossego, das desilusões constantes e cansada de parecer alegre.
Mas sinto que algo me escorre pelos dedos e não o consigo agarrar. Talvez não mereça, mas hei-de ganhar forças para continuar a tentar.
quinta-feira, fevereiro 15, 2007
Núvem de algodão
vivo dias de tédio
dias especiais que passam em passos iguais
dias normais que se atropelam em acontecimentos vulgares.
queria voar, saltar, dormir e acordar.
acordar num sonho...
mas a verdade é que eu não gosto de sonhar.
gosto apenas de viajar.
sozinha e comigo
aqui neste chão,
liberta e abandonada
na minha núvem de algodão.
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
Prosas Gripais

Há uma dor na cabeça.
Um vermelho no olhar.
Quero uma cama que me aqueça,
Onde me possa aconchegar.
A pele estremece,
Todo o meu corpo gela
Já nada mais me aquece,
Nem mesmo o frio da janela.
Olho por ela, fechada,
Há luz e fumo e céu
Afinal sou eu perdida e achada,
Neste quarto que é só meu.
"- Estás a chocar gripe" - Acorda-me a minha mãe.
Dou por mim a divagar,
Num delírio de rosas
Nesta cama onde me vou aconchegar
Perco-me, enfim... em prosas.
Um vermelho no olhar.
Quero uma cama que me aqueça,
Onde me possa aconchegar.
A pele estremece,
Todo o meu corpo gela
Já nada mais me aquece,
Nem mesmo o frio da janela.
Olho por ela, fechada,
Há luz e fumo e céu
Afinal sou eu perdida e achada,
Neste quarto que é só meu.
"- Estás a chocar gripe" - Acorda-me a minha mãe.
Dou por mim a divagar,
Num delírio de rosas
Nesta cama onde me vou aconchegar
Perco-me, enfim... em prosas.
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
A sonhar

Não gosto de sonhar.
Não gosto de adormecer com o medo de sonhar.
Às vezes é bom. Mas a maior parte das vezes é mau.
Há quem goste de fechar os olhos para entrar numa nova dimensão, para abrir as portas de um novo mundo. Um mundo que não é seu, que não é real. Um mundo que não é.
Esse é o mundo dos sonhos.
De um modo geral, sonhar é imaginar aquilo que é bom, que é utópico e inalcançável.
Mas para mim, sonhar a dormir é um pesadelo, um desassossego, uma dor interminável.
Dor que não consigo conter, porque nem sempre tenho consciência de que só dói porque sonho e porque sonho, devia acordar.
Mas não acordo e choro. As imagens não fazem sentido, os sítios são os que conheço, mas de repente soam-me desconhecidos!
As pessoas fazem ou já fizeram parte da minha vida. Se me são próximas, passam a ser distantes, e se me são distantes acabam por se tornar íntimas, sem que nem eu perceba porquê.
Elevadores que caem de pisos à altura do céu, que são conduzidos por um homem doido, de cabelos espetados no ar. Estou acompanhada, mas é como se estivesse só. Porque ninguém me ouve e ninguém entende que quero saltar para fora do sonho, que quero acordar e não voltar a adormecer.
Que tenho medo de sonhar.
Outras vezes são aviões. Que caem.
E sou eu que os quero levantar.
Levantar-me a mim, aqui sozinha...
A sonhar.
sexta-feira, janeiro 19, 2007
Momentos para Esquecer ou talvez não!
Já vos disse que a minha entrega à música é plena, que a música é o óleo que faz mover as minhas engrenagens quando estas se emperram?
Pois bem...
Foi anteontem, quando na tentativa de me fazer o mais prestável possível, me ofereci para ir buscar o meu irmão às explicações de Matemática.
Os minutos passavam e eu sentada dentro do carro, numa inclinação medonha, a pensar em tudo: na minha vida nos últimos tempos, na monotonia dos dias que se iam seguindo, sempre a estudar, sempre a levantar à mesma hora, sempre a desejar que chegue ao fim a interminável época de exames... Mas especialmente a arranjar uma alternativa de tirar o carro daquela maldita subida, sem que o deixasse descair e sem que rebentasse com o motor. Pobre carrinho do meu avô e pobre de mim que odeio subidas!
Uma hora passou e eu perdida em pensamentos. A minha única companhia era o rádio que alternava de frequência mais rapdiamente do que eu saltava de pensamento em pensamento, sem que encontrasse uma música digna de ser banda sonora daquele momento (que deveria ter sido) inexistente. Foi já depois de muitos sofridos minutos que veio a música que tornou todo aquele momento numa melodia alegre e divertida: ela é linda e ele é o Jack Johnson.
Aquilo que ele canta é aquilo que nós imaginamos poder escrever, e até mesmo desenhar. Pena eu não ter jeito para o desenho, porque se tivesse, era um quadro assim que pintava:
I want to be where the talk of the town
Is about last night when the sun went down
And the trees all dance
And the warm wind blows in that same old sound
And the water below gives a gift to the sky
And the clouds give back every time they cry
And make the grass grow green beneath my toes
And if the sun comes out
I'll paint a picture all about
The colors I've been dreaming of
The hours just don't seem enough
To put it all together
Maybe it's as strange as it seems
And the trouble I find is that the trouble finds me
It's a part of my mind it begins with a dream
And a feeling I get when I look and I see
That this world is a puzzle,
I'll find all of the pieces
And put it all together, and then I'll rearrange it
I'll follow it forever
Always be as strange as it seems
Nobody ever told me not to try
And the water below gives a gift to the sky
And the clouds give back every time they cry
And make the grass grow green beneath my toes
And if the sun comes out
I'm going to paint a picture all about
The colors I've been dreaming of
The hours just don't seem enough
To put it all together
Always be as strange as it seems
Ah! E mais meia hora se passou até que saí deste ambiente natural e me fui enfiar na sala das explicações a ouvir um sermão que deveria transmitir fielmente aos meus pais.
Ainda bem que "fugi" à Matemática no 10º ano!
E ainda bem que o meu instrutor insistiu comigo no ponto de embraiagem. Caso contrário ainda agora estaria naquela subida, com o carro engatado a chamar pelo reboque e a desejar nunca ter saído de casa e nunca ter ouvido o Jack Johnson.
Pois bem...
Foi anteontem, quando na tentativa de me fazer o mais prestável possível, me ofereci para ir buscar o meu irmão às explicações de Matemática.
Os minutos passavam e eu sentada dentro do carro, numa inclinação medonha, a pensar em tudo: na minha vida nos últimos tempos, na monotonia dos dias que se iam seguindo, sempre a estudar, sempre a levantar à mesma hora, sempre a desejar que chegue ao fim a interminável época de exames... Mas especialmente a arranjar uma alternativa de tirar o carro daquela maldita subida, sem que o deixasse descair e sem que rebentasse com o motor. Pobre carrinho do meu avô e pobre de mim que odeio subidas!
Uma hora passou e eu perdida em pensamentos. A minha única companhia era o rádio que alternava de frequência mais rapdiamente do que eu saltava de pensamento em pensamento, sem que encontrasse uma música digna de ser banda sonora daquele momento (que deveria ter sido) inexistente. Foi já depois de muitos sofridos minutos que veio a música que tornou todo aquele momento numa melodia alegre e divertida: ela é linda e ele é o Jack Johnson.
Aquilo que ele canta é aquilo que nós imaginamos poder escrever, e até mesmo desenhar. Pena eu não ter jeito para o desenho, porque se tivesse, era um quadro assim que pintava:
I want to be where the talk of the town
Is about last night when the sun went down
And the trees all dance
And the warm wind blows in that same old sound
And the water below gives a gift to the sky
And the clouds give back every time they cry
And make the grass grow green beneath my toes
And if the sun comes out
I'll paint a picture all about
The colors I've been dreaming of
The hours just don't seem enough
To put it all together
Maybe it's as strange as it seems
And the trouble I find is that the trouble finds me
It's a part of my mind it begins with a dream
And a feeling I get when I look and I see
That this world is a puzzle,
I'll find all of the pieces
And put it all together, and then I'll rearrange it
I'll follow it forever
Always be as strange as it seems
Nobody ever told me not to try
And the water below gives a gift to the sky
And the clouds give back every time they cry
And make the grass grow green beneath my toes
And if the sun comes out
I'm going to paint a picture all about
The colors I've been dreaming of
The hours just don't seem enough
To put it all together
Always be as strange as it seems
Ah! E mais meia hora se passou até que saí deste ambiente natural e me fui enfiar na sala das explicações a ouvir um sermão que deveria transmitir fielmente aos meus pais.
Ainda bem que "fugi" à Matemática no 10º ano!
E ainda bem que o meu instrutor insistiu comigo no ponto de embraiagem. Caso contrário ainda agora estaria naquela subida, com o carro engatado a chamar pelo reboque e a desejar nunca ter saído de casa e nunca ter ouvido o Jack Johnson.
sexta-feira, janeiro 05, 2007
Coincidência Gelada
Ontem foi um deles.
Numa das pausas do meu terrível e inquietante estudo resolvi visitar o universo da blogosfera. No da Nia poderão comprovar o quão estranha foi a coincidência com que me deparei.
São estes momentos que nos deixam a pensar. Coisas pequenas, aparentemente insignificantes, que param o tempo num segundo e nos fazem esquecer o resto.
Foi isso que me aconteceu quando revivi o momento de segunda-feira passada, assim que a Nia me fez recordar o diálogo que se gerou em torno daquele magnífico trabalho.
Estado de transe. Foi assim que fiquei ontem ao confrontar a grande coincidência! Quando vi o documentário, lembro-me de ter admirado, mas provavelmente não teria pensado mais nele, se o meu pai não tivesse comentado e dado início a um debate em torno dele. Mesmo assim, com tanta coisa para pensar, jamais voltaria a recordar-me desse trabalho se não tivesse visitado o Blog da Nia e gelado de espanto.
Enfim... Teria sido um momento perfeito, se todo o gelo não se tivesse quebrado quando a minha mãe abriu a porta e me deu a pior notícia dos últimos tempos.
Apesar da beleza inigualável do documentário, acreditem que as coisas más suplantam as boas, mesmo que tentemos impedir.
Ontem foi um dia mau por muitas razões. Muitas lágrimas estão ainda por jorrar. Penso que o gelo que senti com a coincidência com que me brindaram ainda não quebrou por completo.
Tenho medo. Muito medo que quando quebrar, não hajam braços que me consigam segurar.
quarta-feira, dezembro 27, 2006
Não Consigo

Devia ver-te, diz-me a consciência.
Devia ter a oportunidade de te dizer adeus ou simplesmente um olá, quem sabe.
Devia sorrir para ti, pegar-te na mão ténue e dizer-te "estou aqui".
Mas não consigo.
Sei que se te visse, não te veria a ti, mas a algo que de ti se tomou.
Sei que se te enfrentasse dar-te-ia a parte mais fraca de mim, aquilo que até o tempo te roubou.
Sei que se te olhasse seria pela última vez.
E não consigo.
Apodera-se de mim a cobardia dos que perdem a coragem
Perco tudo aquilo que nos ensinou que a vida é, de facto, uma passagem.
Fazes-me pensar que tudo pode escapar-nos pelos dedos, pode roer-nos a corda do destino, pode roubar-nos a felicidade, a riqueza, a família e a nós mesmos.
Não consigo.
Imagino aquilo que já não és.
Sonho com aquilo que de ti conheci.
Mas não consigo despedir-me de ti.
domingo, dezembro 24, 2006
O Homem dos Sete Instrumentos
Aqui está um exemplo de como, com as nossas mãos, conseguimos fazer muito mais do que o que imaginamos.
Feliz Natal para todos
Feliz Natal para todos
quinta-feira, dezembro 21, 2006
Porque é Natal

Porque é Natal, andamos felizes.
Porque é Natal, temos pena daqueles que são menos do que nós, que não têm um lar nem têm uma presente para dar.
Porque é Natal, assistimos a programas de televisão decadentes, com crianças que sofrem todo o ano, mas só agora decidimos dar-lhes atenção.
Porque é Natal, choramos a partida dos que já estiveram connosco.
Porque é Natal, damos dinheiro aos pobres, aos menos pobres e mesmo àqueles que são mais ricos do que nós.
Porque é Natal, perdoamos tudo. Ofendemos os outros sem pensar, mas passado uns minutos esquecemos e damos a desculpa de que "É Natal".
Porque é Natal, tudo nos parece mais bonito. Damos valor às pequenas coisas, andamos sensíveis e damos mais de nós do que em qualquer outra altura do ano.
Mas o Natal passa. O Natal é um dia, umas horas um momento do ano.
E nos restantes momentos, que fazemos nós?
Somos indiferentes aos outros, não temos desculpa para passar por cima deles, não temos uma prenda para lhe dar porque afinal... Não é Natal!
Há quem diga que Natal é quando o Homem quer. Eu diria que o Homem não quer que seja Natal. Esse Homem que sou eu e são todos vocês devia sentir vergonha.
O Natal são todos aqueles momentos que partilhamos com quem gostamos. São as pequenas coisas que nos dão e nos alegram tanto: os sorrisos, as cumplicidades, a companhia...
Pena que isto jamais vá mudar. O Natal vai ser sempre agora, neste dia, para todo o sempre.
E não me venham com falinhas mansas: o Homem não quer que o Natal seja noutro dia. O Natal é agora e nunca mais.
sexta-feira, dezembro 08, 2006
Uma janela aberta
Todas as pessoas que passam na nossa vida são únicas por simples razões.
Além de exclusivas, são também insubstituíveis e completamente incomparáveis.
Mas, por vezes, a vida afasta de nós muitas dessas pessoas. Porque existem caminhos a seguir, porque existem metas a alcançar e porque existe sempre um fim.
No entanto, quando uma porta nos é fechada, existe sempre uma janela a abrir-se diante de nós. Por vezes somos nós que não a queremos abrir, que temos medo de afastar as cortinas e de respirar o ar puro que vem de lá de fora.
Aprendemos a viver assim, com a vida e sem as pessoas que sempre foram importantes para nós. Algumas, mesmo que não partam deste mundo, deixam de estar presentes no nosso dia-a-dia, porque nem sempre os sonhos são fáceis de alcançar.
Foi esta a vida que escolhi: desprender-me de tudo o que me ligava afectivamente às minhas raízes.
Mas querem saber a melhor?
Quando olhei para a janela que se abriu diante de mim, não tinha uma mãe, não tinha um pai nem um irmão, não tinha um avô... nem um Daniel... Esses tinham ficado para trás a ver-me partir.
Mas tinha um dom, uma mão cheia deles: aquilo a que podemos chamar o verdadeiro amigo.
Aqueles que não substituem uma família, mas que verdadeiramente a são. Os laços de sangue podem não-nos unir, mas sabemos que estamos juntas venha o que vier. Vivemos as dores umas das outras e adoecemos quando a melancolia nos abate.
A todas elas deveria ter um "obrigado" a dizer.
Mas, pelo contrário, tenho a promessa que eternamente lhe estarei grata por não me terem deixado só quando pensei que só a mim me teria por companhia.
Esta é a janela que dá para o mundo que tive de enfrentar. Que foi duro, mas torna-se mole quando temos braços que nos podem aguentar.
domingo, novembro 26, 2006
A vida é um lugar estranho
Há estranhos lugares, em estranhos mundos, onde vivem estranhos seres que para nós serão sempre... estranhos! Há outros, porém, que deixam de o ser porque abrem o seu coração para nós e nós abrimos o nosso ao deles, numa fusão de harmonia que nos soa... estranha!
Acredito que as almas vivem e se reencontram ao longo do tempo com aquelas que lhes são compatíveis. Podem passar anos, séculos ou até mais, quem sabe. Mas existem pequenos sinais no nosso dia-a-dia aos quais, se estivermos receptíveis, compreendemos que são indícios de que aquele ser, algum dia, conviveu com o nosso.
Isso aconteceu-me um destes dias em que, numa viagem como tantas outras, num dia como tantos outros, mais uma vez o comboio teve uma história para contar.
Havia alguém que deixou de ser estranho. Que nasceu para pertencer, não direi à minha vida, mas à minha experiência. E alguém o colocou no meu caminho para me ensinar. A crescer, a ver para além dos olhos dos outros, a ser mais receptiva e menos desconfiada.
E no momento em que formos capazes de ver que há tanta na gente no mundo que até pode ser igual a nós, mesmo que pensemos que não... Então aí seremos autênticos e capazes de comprovar que, ao contrário do que pensamos, a vida pode não ser um lugar estranho.
segunda-feira, novembro 13, 2006
Olhos que não vêem
Há uma fila interminavel de gente que inicia mais uma semana de trabalho. Há um atropelamento contínuo de pés, de malas e de vozes. Um percurso acidentado que se sucede todas as santas semanas, em todos os primeiros dias. Os olhares são quase sempre os mesmos. O clima arrefece o coração e o pensamento é transportado para um lugar longínquo. Quase tão longínquo quanto a nossa casa se vai tornado, assim que o comboio desliza pelos carris frios.
E eu olho pela janela os mesmos lugares, as mesmas paisagens. os actos são sempre os mesmos, rotineiros, batidos, pouco sentidos. Nunca há nada de novo, nunca há nada alegre na hora em que me sinto afastar daquilo que realmente me faz feliz.
Às vezes, num disparo de agonia sinto alguns corações baterem diferente, ouço alguns pensamentos perdidos e nasce-me a vontade. De correr, de gritar contra tudo. Como se todos fossem culpados por eu ter que me ir embora.
Hoje, apesar de cá dentro sentir o mesmo de todos os dias, houve algo que desviou a minha atenção. Tantas são as vezes em que olhamos e não vemos ou mesmo as vezes em que vemos e preferiamos não ver. Somos tão injustos...
Uma rapariga saiu do comboio, tal como eu. Era jovem, tal como eu. Cabelos compridos, olhar posto no infinito, tal como eu. A mão ia estendida em frente, segurando algo, tal como eu segurava. Aa minha mão rodava a mala que transportava tudo aquilo que ainda posso trazer comigo. Na mão dela, também algo que ela não pode abdicar. A vida que lhe tiraram, ofereceu-lhe o dom de ter sempre consigo uma companhia.
E mesmo rodeada daquele mar de gente vulgar, mesmo partilhando com eles aquele dia igual a tantos outros, naquele instante o meu momento fechou-se nela... O meu mundo afunilou.
Então vi-a. Era a Susana e o cão que lhe deu o olhar que a vida lhe roubou.