terça-feira, abril 08, 2008

O Bolo da Vida


A minha mãe ensinou-me que quando fazemos um bolo e queremos que ele cresça e fique "fofo", há uma técnica especial que não deixa enganar.

É saber separar a gema da clara, colocando-as em recipientes diferentes.


Mas a vida ensinou-me que, se eu quiser crescer em paz, sem que todos os dias tenha que passar por situações de sofrimento com aqueles que penso que me querem bem, devo fazer este exercício de separação da gema da clara.

Num recipiente pequeno coloco as gemas, com muito cuidado para que não entre nem um pouco da parte transparente do ovo. Porque, às vezes, um pequeno pingo de maldade é suficiente para estragar aquilo que há de bom.

Acima de tudo há que analisar bem aquela bolinha amarela. Eu tenho muito receio com o ovo, inclusive aboli esse alimento das minhas refeições. Mas quando se trata de fazer a escolha da vida, há coisas das quais não podemos abdicar e há riscos que temos que correr.

Então, a pequena tigela vai recebendo algumas gemas de ovo. Umas maiores, outras mais pequenas mas, ao seu jeito, todas elas me farão saudável e irão contribuir para que o bolo se torne bem compacto.


Olho para a pequena tigela e vejo-a tão vazia. Mas será que aquilo que realmente importa é assim tão pouco?


Do outro lado, no grande recipiente onde coloquei as claras, quase não sobra espaço para mais nenhuma. Sei que o meu bolo ficará bem grande e fofo. Sei que irá crescer mais do que a forma onde o vou colocar. O calor fá-lo-á enorme, aparentemente bom e suculento. Mas... e o sabor?


Terão sido aquelas poucas gemas suficientes para lhe dar sabor? Será este alimento suficiente para me alimentar ao longo da vida?

Para isso é que existem as claras. Bati-as em castelo para que crescessem ainda mais. Juntei-as ao preparado anterior e o resultado foi excelente.


À primeira vista o aspecto é fantástico, delicioso, irresistível. Provo as fatias uma a uma, ao longo dos dias e da vida. Sei que as claras fizeram da minha vida aquilo que ela é. Mas, no fundo, não esqueço que o importante sabor e cor foram dados pelas gemas do ovo que, com tanto cuidado, separei.


É para isso que servem as pessoas e as coisas acessórias da vida. Tal como as claras do ovo, batemo-las em castelo, embelezamo-las e criamos a ilusão de que são elas que dão alegria ao nosso dia-a-dia.

Tudo não passa de uma ilusão. Porque o amarelo que dá realmente cor à nossa existência é tão pequeno que quase nem nos lembramos dele. Mas é tão importante que, quando aprendermos a separar a gema da clara, iremos atingir o estado de perfeição e ninguém será capaz de nos superar na excelente tarefa de fazer o bolo da vida.

domingo, março 30, 2008

Quadro de Lousa


Se a vida fosse um quadro de lousa preto, onde se pudesse escrever e apagar a cada instante, então eu viveria no mundo imaginário em que as pessoas importantes nunca o eram por muito tempo.


Somos meras conhecidas, dizemos um "olá" frio e distante. E quase nem nos lembramos dos bons momentos porque os maus acabaram por os suplantar. As boas recordações caem no esquecimento de uma saudade que nem sabemos se é boa ou má e os ex-sorrisos transformam-se em memórias que já não entendemos.

Não entendemos porque é que mudamos tanto... Terei sido eu? Terás sido tu?

Com certeza a culpa não morre só. Mas a mágoa que sinto pelo desprezo que me dás é superior à razão que me faz pensar se merecerás o meu perdão.


Tenho pena de ti quando te vejo só. Porque até ontem a minha companhia era sempre tua. As minhas palavras eram felizes contigo e os momentos bons eram inesquecíveis.

Mas hoje, sei que a minha presença deixou de fazer sentido. Já não te conheço nem reconheço os teus passos.

Hoje caminhamos em caminhos diferentes, em sentidos opostos e em estradas paralelas. Por vezes tentamos enganar-nos, cruzamos as vias e conseguimos uma aproximação. Tão ténue que até dói. E dói mais do que a distância consentida.


Sento-me e penso naquilo que estarás a fazer neste momento. Pensas em nós? Naquilo que fomos um dia? Pensas nos lugares que partilhamos ou nas fotografias que o tempo não apaga?

Terei sido a amizade sem barreiras que ninguém iria ultrapassar? Ou terei sido um engano do destino que a maldade soube separar?


Serei ainda algo que recordas com emoção ou a frieza do teu olhar, a luz que deixaste de emanar gela qualquer espaço de aproximação?


É verdade, já fomos, um dia, laços inquebráveis de amizade. Hoje somos apenas olhares que se cruzam e corações que choram cansados, que lamentam um passado mas que não o admitem.

Hoje somos apenas só mais umas que, ao longo da vida, não têm a força para se voltarem a encontrar, para contrariarem os duros caminhos de ferro que tantas vezes percorremos juntas e para voltarmos a escrever, com o mesmo giz, um "para sempre" no quadro de lousa que alguém apagou.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Life is a box of chocolates...

... You never know what you're gonna get.

Assim se escreve a frase que sintetiza a grande história de Forrest Gump.
Uma história simples, datada dos anos 60, mas que marcou uma fase importante do meu desenvolvimento.
"- Cris, tu quanto eras pequena eras o Forrest Gump" - dizes-me.
Sim, de facto eu era o Forrest Gump. Não porque fosse atrasada mental, gaga ou dona de uma paixão não correspondida. Não porque tivesse decidido dar a volta ao mundo a correr com umas Nike nos pés. Não porque (como se não bastasse) tivesse combatido na Guerra do Vietname e tivesse um colega que só soubesse falar de camarões.
Sim, eu fui o Forrest Gump.
Tudo porque o meu crescimento me pregou uma partida e com apenas um ano me ofereceram uma coisa a que se chama "voador". Que não serve para voar, senão abaixo das escadas...
Tudo porque com apenas um ano eu comecei a caminhar e, sem chegar ao chão sentada no pequeno banco daquela coisa redonda e cor-de-rosa com rodas, comecei a caminhar em bicos de pés.
E assim comecei a andar. Sempre em bicos de pés, tentando ser mais do que era, tentando chegar mais longe do que as minhas capacidades.
Ainda hoje assim sou, mas finalmente tenho os pés no chão.
Não uso voador porque, aos seis anos, decidiram levar-me a um ortopedista. Então passei manhãs e tardes inteiras num cubículo cheio de meninos como eu e como o Forrest Gump. Atraiçoados pelo próprio desenvolvimento motriz. Esperava horas e era atendida por um médico, ou um técnico que me apertava as pernas entre uns ferros desde a anca até ao tornozelo. Daí saía finalmente uma bota ortopédica que estava ligada ao ferro que descia da anca e se prendia a mim como uma sanguessuga através de umas faixas de velcro.
Tudo porque as minhas rótulas decidiram inverter o sentido e começar a rodar para dentro, direccionando as extremidades dos meus pés uma para a outra e fazendo-me caminhar como uma... pessoa menos normal.

A parte boa era que no fim das consultas uma senhora com cara de má me oferecia um chupa-chupa daqueles espalmados e redondos de várias cores enrolados num plástico transparente. E eu gostava sempre do verde...
E assim foi. Durante cerca de um ou dois anos na minha infância, eu fui o Forrest Gump. Eu usava sempre as mesmas botas ortopédicas quando as minhas amigas podiam usar sapatilhas ou sapatos novos. Eu usava sempre calças quando as minhas colegas podiam mostrar-me as saias novas que a mãe lhes havia oferecido. E eu não podia correr muito, ou arriscava-me a partir o aparelho que (de vez em quando partia só para minha felicidade) me estava a arrancar a parte mais divertida da minha infância.
Por isso sim, eu fui o Forrest Gump.

Mas será disso que se lembram quando pensam em mim quando fui criança?
É que eu só me recordo desse episódio quando mo lembram...
Será que se lembram do último trabalho meu? Será que o leram ou deixaram apodrecer o AUDIÊNCIA no canto mais escondido do banco da cozinha?
Sei que não lhes dou muitas vitórias. Inclusivé não sou aquilo que sonharam que fosse.
Mas por favor, não me lembrem apenas de que fui o Forrest Gump.
Eu cresci e já abri a caixa de chocolates que a vida me deu.
E realmente a mãe do Forrest estava certa: nunca sabemos o que ela nos traz.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Ou então sou assim...

Your results:
You are Wonder Woman






















Wonder Woman
73%
Supergirl
68%
Spider-Man
60%
Green Lantern
60%
Robin
48%
Superman
40%
Hulk
40%
Iron Man
40%
Batman
35%
Catwoman
35%
The Flash
30%
You are a beautiful princess
with great strength of character.


Click here to take the Superhero Personality Quiz

Dizem que sou assim...


You are The High Priestess


Science, Wisdom, Knowledge, Education.


The High Priestess is the card of knowledge, instinctual, supernatural, secret knowledge. She holds scrolls of arcane information that she might, or might not reveal to you. The moon crown on her head as well as the crescent by her foot indicates her willingness to illuminate what you otherwise might not see, reveal the secrets you need to know. The High Priestess is also associated with the moon however and can also indicate change or fluxuation, particularily when it comes to your moods.


What Tarot Card are You?
Take the Test to Find Out.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Sou pedra mármore

Sou doce quandos dias acordam frios e sou fria quando o gelo me perfura a alma.


Sei ser mole quando me dominam mas sou naturalmente frágil e dura.


Sou pedra mármore, branca calcinada de negro. Dura de roer, fria como o vento mas ao mesmo tempo quebrável ao primeiro toque.


Sou o que a vida me ensinou a ser.


Coração de manteiga, fio de água fresca, amarga como as formigas nas bolachas doces.


Sou alérgica a críticas que desconheço. Sensível às palavras más daqueles que gosto.


Mas a vida começou a mostrar-me que nem tudo é como eu gostaria que fosse.


As pessoas não são boas.


A vida é madrasta.


Os amigos escorrem pelos dedos.


E a cada minuto que passa sou mal desejada, mal vista, criticada.


Aos poucos aprendo a lidar com isso. Aos poucos ainda choro com isso.


Talvez um dia deixe que tudo me passe e eu permaneça impermeável.


Como a pedra mármore, quando não é cortada e aprecia de longe tudo o que lhe passa por cima.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

O nosso sonho

O nosso sonho morreu hoje nas mãos do destino.
Roubaram-no de nós como quem rouba um filho recém-nascido.
E eu chorei por ele e por ti,
Por não o poder viver na tua companhia.

Vou partir com ele, meu amor.
Porque me pedes que parta.
Mas nada será igual sem ti.
Porque tu és o pai dos meus sonhos.
Porque contigo sonho acordada o infinito e mais além.
Vou por ti.
Mas a dor de não te levar é mais forte do que a de o ver partir.

Eu prometo, meu amor
Vou voltar com o nosso sonho,
Aquele que geramos juntos.
E vai ser igual.
Tudo como era.
Tudo como fizemos.
Ainda que eu não tenha forças para acreditar.
Que esse sonho era teu e era meu.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Coisa feia, a Inveja


É tão cruel e tão dura que magoa mais do que qualquer arma.

Tem tanto de humano que se torna desumana.

Mas quem não o sente?

Quem nunca o sentiu?

É dura, crua, sacana...

Devia magoar mais quem a tem do que quem a sofre, mas quem a tem nunca o descobre e quem a sofre nunca a ultrapassa.

Dizem-nos que temos que saborear as coisas más para aprender a amar as boas.

Um dia provei a inveja e soube-me a fel. Nunca soube bem qual o sabor do fel, mas é amargo como as formigas. Quem nunca comeu uma formiga nunca saberá a que sabe a inveja. A única diferença é que a formiga é pequena e engole-se e a inveja é impossível de engolir.

Não a sei definir melhor.

Mas sei que é má.

E que é feia.

domingo, fevereiro 03, 2008

Vida madrasta

Com o tempo, a vida ensina-nos que a única pessoa com quem podemos SEMPRE contar é connosco próprios.
Porque, quando a maré está calma e não há tempestades, a areia cola-nos aos pés e não nos faz aflição nenhuma. Na verdade, até gostamos de sentir o cheiro a maresia e lembrar-nos de quando éramos crianças e brincávamos com tudo. Aquilo que, às vezes, tanto nos irrita (como a areia colada até aos joelhos) é algo que adorávamos há anos atrás.
Mas, quando o mar embravece e não nos podemos chegar perto. Quando o perigo é iminente e não temos quem nos ajude a escapar do afogamento. Aí, não temos areia colada às pernas. Sentimo-nos sós e uma mágoa enorme apodera-se do nosso corpo.
Porque a solidão é o pior sentimento que podemos sentir, principalmente quando trás de arrasto a constatação de que mais vale que estejemos sós e nos salvemos das injustiças, do que ter companhias que nos tragam tristezas e desilusões a cada dia que passe.
É que quando o mar está calmo e as coisas más não chegam perto, temos imensos braços para nos amparar...
Mas quando olhamos para o lado, só nos temos a nós. Porque aqueles que cá deviam estar, estão mais preocupados em se salvar a si próprios e a outros que não nós.
A vida é madrasta.
Deviamos aprender com ela.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Não me deixes sozinha


Ando triste.

Cheguei a casa na passada sexta-feira e o meu "pequeno Leo" como sempre lhe chamo, olhava-me do lado de dentro da porta.

Sorri imediatamente. Uma alegria incondicional apoderou-se de mim. Mas a duração foi tão escassa e tão fina que, por momentos, tenho a certeza que o meu coração parou.

No dia anterior tinha-o achado doente. Parti com tristeza porque sentia-o a sofrer e sem capacidade de se queixar.

O que mais dói quando nos apaixonamos por um animal é vê-lo sofrer. Principalmente porque são tão nossos amigos, tão companheiros que, quando ficam doentes, não são capazes de se queixar.

Nos olhos dele via lágrimas e tristeza.

Apetecia-me chorar, mas dizem-me que eles precisam da nossa força.

Na semana anterior, devido ao enorme coração do meu namorado, vivi um dos episódios mais marcantes de toda a minha vida. E foi com um animal. O pequeno cão agoniava no meio da estrada. O Daniel pegou nele e levou-o ao veterinário. Não havia nada a fazer. O sofrimento era demasiado para lutar pela vida dele.

Paguei. E ele morreu.


Só te peço, meu Leo:

Não me deixes sozinha.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Ver com os olhos do Coração


Trabalhar no Audiência tem-me aberto muitas portas. Principalmente as portas da imaginação.

Porque pensar faz-nos crescer, mesmo que por vezes só sirva para complicar.

Ontem foi a vez de me fazer pensar em tudo o que Saint-Exupéry foi capaz de condensar num livro que cabe na palma da mão.

"O Principezinho" é tão simples, tão pequeno, tão fugaz que se "lê" numa hora, ou talvez menos.

Mas será que uma vida inteira serve para compreender a profundidade de tal lição?

Mais uma vez os meus parabéns ao senhor La Feria.

Assistir ao Principezinho de La Feria é aprender a ver a vida com os olhos do coração, nem que seja apenas durante os 45 minutos em que a ilusão ainda dura.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Há muito que não escrevo.... aqui

Há dias perguntou-me o meu pai: "Tens actualizado o teu blogue?"
A resposta foi penosa.
És um espaço onde desabafo, onde dou aso à minha imaginação, onde escrevo aquilo que quero e até aquilo que não posso.
A vida deu-me espaços. Deu-me liberdade. Mas uma liberdade condicional.
Vivo para escrever e a escrita é o meu dia-a-dia, a minha linguagem-mãe.
É a escrever que comunico ao mundo aquilo que vejo. Aquilo que quero que os outros vejam à minha maneira. A escrita é a minha forma de impôr ao mundo a forma como quero que eles o vejam.
E quando escrevo, mando.
Quando escrevo sou soberana, mesmo que lá no fundo queira que me ignorem, que me anulem à minha pequena ignorância, ao meu não saber, à minha pequenez.
No fundo sou pequena. Mas na escrita encontro o altar onde acho que me posso elevar.
Mesmo que em momentos de lucidez tenha noção de que não sou aquilo que quero ser, de que não sei aquilo que quero ser, de que não...

"Não pai. Não escrevo há muito tempo. Prefiro escrever num jornal onde, pelo menos, tenho a certeza de que alguém me lê. Nem que seja apenas o editor".

terça-feira, dezembro 11, 2007

Driving Home for Christmas


Porque não há tempo para mais...
Porque tenho pena de te deixar ao abandono...
Porque gostava de me poder dedicar a ti com mais alma...
Mas porque, no fundo, sei que ninguém sente falta...
E porque já cheira a Natal, apesar de o coração ainda não sentir...

Aqui fica uma das minhas músicas de Natal preferidas...

Porque às vezes sinto que estou a conduzir em direcção ao Natal e ninguém me vê:

Driving Home For Christmas
(Chris Rea)

Im driving home for christmas
Oh, I cant wait to see those faces
Im driving home for christmas, yea
Well Im moving down that line
And its been so long
But I will be there
I sing this song
To pass the time away
Driving in my car
Driving home for christmas

Its gonna take some time
But Ill get there
Top to toe in tailbacks
Oh, I got red lights on the run
But soon therell be a freeway
Get my feet on holy ground

So I sing for you
Though you cant hear me
When I get trough
And feel you near me
I am driving home for christmas
Driving home for christmas

With a thousand memories
I take look at the driver next to me
Hes just the same
Just the same
Top to toe in tailbacks
Oh, I got red lights on the run
Im driving home for christmas, yea
Get my feet on holy ground

So I sing for you
Though you cant hear me
When I get trough
And feel you near me
Driving in my car
Driving home for christmas
Driving home for christmas
With a thousand memories

segunda-feira, outubro 29, 2007

União


Sabes quando é que tenho a certeza de que somos um só?

Mais do que quando sorrimos, é quando temos vontade de chorar juntos.

Mas não choramos.

Porque a minha fraqueza se anula na tua força.

E porque a minha força é pouca quando te tornas fraco.

Mais do que quando acordamos, é quando não conseguimos dormir.

Porque sei que os teus olhos estão abertos e eu não tenho sonhos se tu não estiveres neles.

Mais do que ter problemas, é viver os teus como se fossem meus.

É querer chorar quando tenho que lá estar para te apoiar. É querer sorrir sem te mostrar que estou a mentir.

Porque o teu sorriso ilumina o meu. Porque me buscas forças onde ninguém sabe que existem.

É aí que sei que somos um.

Porque o que é teu é meu.

No bem e no mal.

E para sempre.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Circo de Feras


A arena está repleta de gente na bancada que salta, canta e grita o meu nome. As suas vozes são distantes como o horizonte. À minha frente apenas a fera, sedenta de mim, que ruge e me espera amordaçar.

As vozes tornam-se cada vez mais distantes e os rugidos parecem extravasar-me os tímpanos. Quero uma porta de saída, um recanto para me esconder, um sítio onde possa ficar sem que me apanhem.

Ninguém. Ninguém ouve o meu grito de desespero. Todos pensam que sou capaz, mas apenas eu acredito que não.

Agora que me lançaram às feras, agora que a vida mudou e o trabalho aperta sinto-me ínfima no mundo. Sinto-me só.

Só porque nada nem ninguém está lá para me amparar. E quando não sei qual o caminho a tomar? Mais do que a solidão, a ignorância apodera-se das minhas forças, a certeza de ter vivido até agora a pensar que se sabe algo de que nunca se teve conhecimento é a maior frustração que sentimos.
Nada. Eu não sei nada.
Sabem que mais?

Estamos sós.

É que no circo de feras, somos só nós e mais ninguém. Só nós e a fera que nos aguarda lenta e silenciosa no fundo da parada.

terça-feira, outubro 09, 2007

Everything

Na véspera de, por mais um ano, seguir em frente de vez e deixar tanta coisa para trás, aqui fica a dedicatória àqueles que me irão preencher com enorme saudade.
As saudades doem, mas são diferentes quando sabemos por quem as sentimos.

"Everything"
(Michael Bublé)

You're a falling star, you're the get away car.
You're the line in the sand when I go too far.
You're the swimming pool, on an August day.
And you're the perfect thing to say.

And you play it coy, but it's kinda cute.
Ah, when you smile at me you know exactly what you do.
Baby don't pretend, that you don't know it's true.
Cause you can see it when I look at you.

And in this crazy life, and through these crazy times
It's you, it's you, you make me sing.
You're every line, you're every word, you're everything.

You're a carousel, you're a wishing well,
And you light me up, when you ring my bell.
You're a mystery, you're from outer space,
You're every minute of my everyday.

And I can't believe, uh that I'm your man,
And I get to kiss you baby just because I can.
Whatever comes our way, ah we'll see it through,
And you know that's what our love can do.

And in this crazy life, and through these crazy times
It's you, it's you, you make me sing
You're every line, you're every word, you're everything.

So, la, la, la, la, la, la, la
So, la, la, la, la, la, la, la

And in this crazy life, and through these crazy times
It's you, it's you, you make me sing.
You're every line, you're every word, you're everything.

You're every song, and I sing along.
'Cause you're my everything
.Yeah, yeah

So, la, la, la, la, la, la, la
So, la, la, la, la, la, la, la

quarta-feira, setembro 26, 2007

De vez em quando... as surpresas...

De vez em quando a vida corre bem.
Os dias são felizes e há surpresas.

Surpresas boas. Nao daquelas que eu não gosto. Não daquelas que fazem temer. Nem daquelas que me fazem querer desvendá-las antes do tempo.

Porque as surpresas devem esperar. Devem vir no momento certo. Devem ser sempre boas. E, acima de tudo, devem ser merecidas.

De vez em quando são as surpresas que mudam a vida. Quando menos esperamos, quando não planeamos e quando nos deixamos levar.

As surpresas são adoradas por muitos. Mas também há quem as odeie.

Eu gosto de as ter, mas só passo a gostar delas depois de as conhecer.
É que de vez em quando não gosto de sofrer. Deixo de suportar sofrer. Deixo de conseguir viver a sofrer.

Sofrer na ânsia é a pior surpresa que nos podem reservar. Porque sofrer é mau. E uma surpresa má é sempre uma má surpresa.

Por isso só gosto de surpresas boas.

E hoje sinto-me feliz porque tive uma boa surpresa.

Será que o desenrolar será mesmo bom?

Resta-me esperar...

É que de vez em quando, também gosto de ser feliz. Nem que seja por um instante. Nem que seja por um momento. Momento em que a surpresa ainda dura.

domingo, setembro 16, 2007

Vingança


Há quem diga que se deve servir fria. Gelada. Num prato redondo e camuflado para que entre pela boca e corroa o nosso interior com feridas profundas e crónicas.

Todos temos sede dela. Mas nem todos a conseguimos administrar.

Todos um dia a sofremos. Todos um dia temos vontade de a usar.

Mas nem todos o fazemos.

Tenho vontade e tenho razões para me vingar.

Dei muito de mim a quem não o quis aproveitar.

Confiei em quem me traiu.

Mas será isso um motivo para magoar tão ou mais profundamente aquele que mo fez?

Não.

Resumo-o à mais ínfima partícula. Ao mínimo significado. Àquilo que jamais será para mim.

Dar mais de mim?

Nunca mais.

Talvez se contente com um sorriso forçado, uma palavra sincera.

Mas nunca comigo.

Eu jamais me darei a quem me traiu.

Essa é a maior vingança que se pode dar.

domingo, setembro 09, 2007

Nós para Sempre

Quatro anos depois

Vejo a vida a seguir em frente, vejo o passado a andar para trás.
Vejo sorrisos em gente diferente e vejo aquilo que o mundo lhes faz.
Vejo-te a ti e a mim, vejo aquilo que criamos juntos,
Vejo ventos perdidos, vejo problemas defuntos...
Porque contigo eu sou eu.
Porque comigo tu és tu.
E eu sou nós.
Nós para sempre.
Um sempre infinito.
Um sempre sem fim.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Esta sou eu

Gosto de vacas e de vaquinhas... mas não daquelas a sério que têm tetinhas e que fazem mumu... gosto mais daquelas que imitam essas e que estão no meu quarto, na parede, no tecto e no chão... gosto de chocolate, de gelados da Olá e do Daniel... gosto da minha família mas restrinjo-a aos elementos essenciais, àqueles sem os quais não saberia viver... prezo muito a amizade, mas cada vez conservo menos amigos... uns porque me fogem sem que eu os consiga agarrar, outros porque a longo prazo me mostram que mais valia não os ter consentido tal cargo. tenho poucos, às vezes sou incapaz de me lembrar de quem são, mas sei que os que existem estão sempre lá. às vezes magoam-me, outras vezes apunhalam-me. mas gosto de crer que são meus amigos, porque se não tiver essa crença, então posso dizer que vivo sozinha... tenho medo da solidão, como também tenho medo das doenças. sou um pouco hipocondríaca. stressada, irrequieta, desconfiada e nariz empinado. respondona, por vezes fria mas no fundo um coração de manteiga. sou normalmente alegre, mas muitas vezes triste. sou FELIZ. sou o que sou e não o que querem que seja. sou assim e quem gostar gostou, quem não gostar talvez nunca o venha a admitir.

terça-feira, agosto 14, 2007

Do outro lado do espelho


Do outro lado do espelho posso ser quem quero.
Posso ser quem nunca fui.
Posso ser eu ou tu. Podemos ser nós.
Do outro lado do espelho a vida passa errante.
Os dias são dias e noites e as alegrias passam sem parar.
Do outro lado do espelho nada pára senão eu.
Eu sou estática, inerte e pó.
Um pó que é nada, que é colorido e que também é negro.
Do outro lado do espelho sou só eu e as minhas memórias.
Eu apenas reflectida num rosto cansado e negro, perdida nas estórias que apenas sei reviver.

quarta-feira, julho 25, 2007

Livre


Houve amarras que me prenderam ao chão.
Houve vozes que me gritavam e chamaram à razão.
Houve dor, sofrimento e desespero.
Houve falta de compreensão, arrependimento e medo.
Houve "porquês", houve "sims" e "nãos".
Houve aquilo que pensamos que é positivo, e houve o reverso da medalha...
O negativo.
É sempre o negativo que nos faz perder a fé.
É o negativo que nos rouba a esperança.
É o negativo que nos faz perguntar.

Bateram à porta. Fui abrir.
Veio o sol, a alvorada, uma leve brisa.
Por vezes veio também a esperança e uma pequena alegria.
Uma amálgama de emoções e sentimentos confusos.
Era tempo para lutar. Lutar e seguir em frente.
Mas seguir rumo a quê? - perguntei-me.
Lutar em vão é o pior sentimento que podemos sentir.
Olhar em redor e ver que todos conseguem e eu aqui sozinha, sempre sem conseguir.
Perdi a fé em mim, perdi a vontade de crer.

Agora que tudo passou, que uma nova vida está para vir,
Sinto-me livre e tudo o que quero é viver.

quinta-feira, julho 19, 2007

Porque às vezes precisamos de um Encosto...

Encosta-te a mim
(Jorge Palma)



Encosta-te a mim
Nós já vivemos cem mil anos
Encosta-te a mim
Talvez eu esteja a exagerar
Encosta-te a mim
Dá cabo dos teus desenganos
Não queiras ver quem eu não sou
Deixa-me chegar
Chegado da guerra
Fiz tudo para sobreviver
Em nome da terra
No fundo para te merecer
Recebe-me bem
Não desencantes os meus passos
Faz de mim o teu herói
Não quero adormecer
Tudo o que eu vi
Estou a partilhar contigo
O que não vivi
Hei-de inventar contigo
Sei que não sei,
Às vezes entender o teu olhar
Mas quero-te bem
Encosta-te a mim
Encosta-te a mim
Desatinamos tantas vezes
Vizinha de mim
Deixa ser meu o teu quintal
Recebe esta pomba
Que não está armadilhada
Foi comprada, foi roubada
Seja como for
Eu venho do nada
Porque arrasei o que não quis
Em nome da estrada
Onde só quero ser feliz
Enrosca-te a mim
Vai desarmar a flor queimada
Vai beijar o homem bomba
Quero adormecer
Tudo o que eu vi
Estou a partilhar contigo
E o que não vivi
Um dia hei-de inventar contigo
Sei que não sei
Às vezes entender o teu olhar
Mas quero-te bem
Encosta-te a mim
Encosta-te a mim
Quero-te bem...
Encosta-te a mim...

terça-feira, julho 10, 2007

Balde de água fria

Há dias que são por natureza frios.

Mas não é um frio que se sente. É um frio que perfura e corrói. E magoa e faz chorar.

Um frio gelado. Que escorrega pelas costas abaixo e se renova a cada minuto.

Sentimo-nos gelados, desconfortados como quando éramos criança e passavamos férias na neve. Os dedos gelavam e chorávamos com a dores insuportáveis nas pontas dos dedos que já nem sentíamos.

O frio, às vezes, faz chorar.


Há quem lhe chame "balde de água". Para mim é só uma decepção. Mais uma desilusão. A sensação de subir alto, de ultrapassar a vertigem e de depois cair. Mas cair a alta velocidade, perfurar as vagas frias e deixar de sentir o corpo. Deixar de ver o mundo. Deixar de ver os outros.

Essencialmente deixar de ver os outros como pensávamos ver.

E quando, por fim, aterramos... O chão não é frio. O chão é como a água, inodoro, incolor e insípido. O chão é a água.

Que nos cai, lentamente, no coração.

E essa água é fria. E há um balde que cai no chão.

sexta-feira, junho 29, 2007

Porque às vezes precisamos de luz...

Ilumina-me

(Pedro Abrunhosa)



Gosto de ti como quem gosta do sábado,

Gosto de ti como quem abraça o fogo,

Gosto de ti como quem vence o espaço,

Como quem abre o regaço,

Como quem salta o vazio,

Um barco aporta no rio,

Um homem morre no esforço,

Sete colinas no dorso

E uma cidade p’ra mim.



Gosto de ti como quem mata o degredo,

Gosto de ti como quem finta o futuro,

Gosto de ti como quem diz não ter medo,

Como quem mente em segredo,

Como quem baila na estrada,

Vestido feito de nada,

As mãos fartas do corpo,

Um beijo louco no porto

E uma cidade p’ra ti.



Enquanto não há amanhã,

Ilumina-me, Ilumina-me.

Enquanto não há amanhã,

Ilumina-me, Ilumina-me.



Gosto de ti como uma estrela no dia,

Gosto de ti quando uma nuvem começa,

Gosto de ti quando o teu corpo pedia,

Quando nas mãos me ardia,

Como silêncio na guerra,

Beijos de luz e de terra,

E num passado imperfeito,

Um fogo farto no peito

E um mundo longe de nós.



Enquanto não há amanhã,

Ilumina-me, Ilumina-me.

Enquanto não há amanhã,

Ilumina-me, Ilumina-me.

quinta-feira, junho 14, 2007

Elogio

Ao meu amigo Zé (quita)

É uma simples palavra, um simples sorriso, uma simples acção.
É como uma rosa branca que se recebe quando menos se espera.
É uma surpresa profunda.
É único. E é escasso.
Como o tempo.
Que passa e não volta.
Mas é bom.
E quando vem, é eterno e intemporal.
Um agradecimento profundo a ti. Serás sempre benvindo.

segunda-feira, junho 11, 2007

Há uma música do povo

Há uma musica do Povo,
Nem sei dizer se é um Fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado…

Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser…
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver…

Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção…
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração…

Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido…
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!

Nunca fui grande fã de fado. Mas este supera qualquer sentimento.
Tenho pena de não poder dar-vos o som. Mas é sublime.
Poema de Fernando Pessoa e voz de Mariza.

sábado, junho 09, 2007

Tu


Hoje sonhei contigo.

Foi real como um sono profundo.

Como se não vivesses no outro mundo

E me desses na tua face

A calma de um doce abrigo.

Eras tu, estou certa de que eras tu.

quarta-feira, maio 30, 2007

Desilusão


É uma faca que extravasa os nossos sentidos e perfura fundo.

Normalmente não contamos com ela, por isso é que é tão fria. Não nos dá tempo para nos defendermos nem tão pouco para nos protegermos. E devia.

Porque quando toca, dói.

E muito.

quarta-feira, abril 25, 2007

Paradoxos


Não gosto de dias de chuva nem de dias tristes.

Não gosto de estar longe de quem gosto ou de estar perto e sentir-me distante.

Não gosto de quebrar a rotina, mas também detesto fazer sempre a mesma coisa.

Não gosto de ouvir música com headphones porque adoro cantar nas alturas, mas nem sempre o posso fazer com o risco de ser observada.

E se há coisa que não gosto é que me olhem de cima abaixo.

Na verdade, não gosto de dar nas vistas.

Não gosto de hipocrisia e não gosto que me traiam.

Não gosto de ser fria e injusta, mas se não o for serão sempre hipócritas e irão sempre trair-me.

Não gosto de estar triste, mas sei que às vezes é preciso.

Afinal tudo aquilo de que não gosto acaba sempre por acontecer para que possa pensar naquilo que realmente é bom.


Paradoxos da vida!

segunda-feira, abril 02, 2007

Amadeus

Vi há dias um dos filmes de que jamais esquecerei.
"Tu que tanto gostas de música, não havias de perder o 'Amadeus'" - diziam-me.
De facto, não devia tê-lo perdido. Pelo menos por tanto tempo. Devia ter deixado que ele invadisse a minha vida bem antes.
Para perceber que a música não é um som, mas um dom, não uma escolha, mas uma vida...

sexta-feira, março 30, 2007

Folhas caídas no coração


Sinto que o que tinhamos começou a perder-se ao longo do tempo, como as folhas das árvores que caem lentamente no Outono e se espalham, por fim no chão.


Há um fio de vento que ninguém sabe de onde vem, porque ninguém o sente senão eu. Nem tu.

Penso que alguém o soprou só para mim, que todas as portas se fecharam e apenas uma janela ficou aberta para fazer a corrente de ar subir e atingir-me as costas, perfurar-me os pulmões cansados e atingir-me como um punhal.

Um punhal que fura mas que não mata. Que corrói mas que não faz sangrar. Que não se sente mas que atinge, magoa e me faz suspirar as folhas caídas no chão.

"Antes que venha o Inverno e disperse ao vento essas folhas [...] que por aí caíram, vamos escolher uma ou outra que valha a pena conservar, ainda que não seja senão para memória", dizia o Garret nas "Folhas Caídas".

Folhas de árvore, longe das folhas de papel. Que não rasgam e que às vezes são verdes ou castanhas. Mas são sempre leves, sempre soltas e livres.

Olho para o chão e apenas vejo pedaços folhas castanhas. Mortas. Ou estarão simplesmente a dormir? São folhas, caídas, adormecidas no chão.

Será que ainda vamos a tempo de as apanhar e colar nos ramos vazios?

Ou será no meu coração?

sexta-feira, março 09, 2007

Cansada


"Tudo me corre mal", é a frase que mais tenho proferido. Sabem o que é sentir que a vida nos vira as costas? Que alguém se esquece de nós e nos tranca o caminho da sorte?

Nem sei se tenho vontade de chorar ou de rir, mas supero-me ao mostrar aos outros a face que não consigo ver.

Aparento a alegria que não tenho, a satisfação que há muito não sinto e a companhia que preciso quando todos me abandonam.

Não estou só, mas sinto falta. E essa é a maior dor que se pode sentir. Olhar em redor, ter tudo e ao mesmo tempo não ter nada.

Ter dias que correm ambíguos, acontecimentos que se atropelam em marés de azar, tristeza que aumenta a olhos vistos e falta de uma alegria para me confortar.

"Estás cansada", disse-me hoje a minha mãe. Sim. Cansada da vida, cansada do desassossego, das desilusões constantes e cansada de parecer alegre.

Mas sinto que algo me escorre pelos dedos e não o consigo agarrar. Talvez não mereça, mas hei-de ganhar forças para continuar a tentar.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Núvem de algodão


vivo dias de tédio

dias especiais que passam em passos iguais

dias normais que se atropelam em acontecimentos vulgares.

queria voar, saltar, dormir e acordar.

acordar num sonho...


mas a verdade é que eu não gosto de sonhar.

gosto apenas de viajar.

sozinha e comigo

aqui neste chão,

liberta e abandonada

na minha núvem de algodão.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Prosas Gripais


Há uma dor na cabeça.
Um vermelho no olhar.
Quero uma cama que me aqueça,
Onde me possa aconchegar.
A pele estremece,
Todo o meu corpo gela
Já nada mais me aquece,
Nem mesmo o frio da janela.
Olho por ela, fechada,
Há luz e fumo e céu
Afinal sou eu perdida e achada,
Neste quarto que é só meu.

"- Estás a chocar gripe" - Acorda-me a minha mãe.

Dou por mim a divagar,
Num delírio de rosas
Nesta cama onde me vou aconchegar
Perco-me, enfim... em prosas.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

A sonhar


Não gosto de sonhar.

Não gosto de adormecer com o medo de sonhar.

Às vezes é bom. Mas a maior parte das vezes é mau.

Há quem goste de fechar os olhos para entrar numa nova dimensão, para abrir as portas de um novo mundo. Um mundo que não é seu, que não é real. Um mundo que não é.

Esse é o mundo dos sonhos.

De um modo geral, sonhar é imaginar aquilo que é bom, que é utópico e inalcançável.

Mas para mim, sonhar a dormir é um pesadelo, um desassossego, uma dor interminável.

Dor que não consigo conter, porque nem sempre tenho consciência de que só dói porque sonho e porque sonho, devia acordar.

Mas não acordo e choro. As imagens não fazem sentido, os sítios são os que conheço, mas de repente soam-me desconhecidos!

As pessoas fazem ou já fizeram parte da minha vida. Se me são próximas, passam a ser distantes, e se me são distantes acabam por se tornar íntimas, sem que nem eu perceba porquê.

Elevadores que caem de pisos à altura do céu, que são conduzidos por um homem doido, de cabelos espetados no ar. Estou acompanhada, mas é como se estivesse só. Porque ninguém me ouve e ninguém entende que quero saltar para fora do sonho, que quero acordar e não voltar a adormecer.

Que tenho medo de sonhar.

Outras vezes são aviões. Que caem.

E sou eu que os quero levantar.

Levantar-me a mim, aqui sozinha...

A sonhar.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Momentos para Esquecer ou talvez não!

Já vos disse que a minha entrega à música é plena, que a música é o óleo que faz mover as minhas engrenagens quando estas se emperram?
Pois bem...
Foi anteontem, quando na tentativa de me fazer o mais prestável possível, me ofereci para ir buscar o meu irmão às explicações de Matemática.
Os minutos passavam e eu sentada dentro do carro, numa inclinação medonha, a pensar em tudo: na minha vida nos últimos tempos, na monotonia dos dias que se iam seguindo, sempre a estudar, sempre a levantar à mesma hora, sempre a desejar que chegue ao fim a interminável época de exames... Mas especialmente a arranjar uma alternativa de tirar o carro daquela maldita subida, sem que o deixasse descair e sem que rebentasse com o motor. Pobre carrinho do meu avô e pobre de mim que odeio subidas!
Uma hora passou e eu perdida em pensamentos. A minha única companhia era o rádio que alternava de frequência mais rapdiamente do que eu saltava de pensamento em pensamento, sem que encontrasse uma música digna de ser banda sonora daquele momento (que deveria ter sido) inexistente. Foi já depois de muitos sofridos minutos que veio a música que tornou todo aquele momento numa melodia alegre e divertida: ela é linda e ele é o Jack Johnson.
Aquilo que ele canta é aquilo que nós imaginamos poder escrever, e até mesmo desenhar. Pena eu não ter jeito para o desenho, porque se tivesse, era um quadro assim que pintava:



I want to be where the talk of the town
Is about last night when the sun went down
And the trees all dance
And the warm wind blows in that same old sound
And the water below gives a gift to the sky
And the clouds give back every time they cry
And make the grass grow green beneath my toes
And if the sun comes out
I'll paint a picture all about
The colors I've been dreaming of
The hours just don't seem enough
To put it all together
Maybe it's as strange as it seems
And the trouble I find is that the trouble finds me
It's a part of my mind it begins with a dream
And a feeling I get when I look and I see
That this world is a puzzle,
I'll find all of the pieces
And put it all together, and then I'll rearrange it
I'll follow it forever
Always be as strange as it seems
Nobody ever told me not to try
And the water below gives a gift to the sky
And the clouds give back every time they cry
And make the grass grow green beneath my toes
And if the sun comes out
I'm going to paint a picture all about
The colors I've been dreaming of
The hours just don't seem enough
To put it all together
Always be as strange as it seems

Ah! E mais meia hora se passou até que saí deste ambiente natural e me fui enfiar na sala das explicações a ouvir um sermão que deveria transmitir fielmente aos meus pais.
Ainda bem que "fugi" à Matemática no 10º ano!
E ainda bem que o meu instrutor insistiu comigo no ponto de embraiagem. Caso contrário ainda agora estaria naquela subida, com o carro engatado a chamar pelo reboque e a desejar nunca ter saído de casa e nunca ter ouvido o Jack Johnson.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Coincidência Gelada

Há dias assim, estranhos por natureza.
Ontem foi um deles.
Numa das pausas do meu terrível e inquietante estudo resolvi visitar o universo da blogosfera. No da Nia poderão comprovar o quão estranha foi a coincidência com que me deparei.
São estes momentos que nos deixam a pensar. Coisas pequenas, aparentemente insignificantes, que param o tempo num segundo e nos fazem esquecer o resto.
Foi isso que me aconteceu quando revivi o momento de segunda-feira passada, assim que a Nia me fez recordar o diálogo que se gerou em torno daquele magnífico trabalho.
Estado de transe. Foi assim que fiquei ontem ao confrontar a grande coincidência! Quando vi o documentário, lembro-me de ter admirado, mas provavelmente não teria pensado mais nele, se o meu pai não tivesse comentado e dado início a um debate em torno dele. Mesmo assim, com tanta coisa para pensar, jamais voltaria a recordar-me desse trabalho se não tivesse visitado o Blog da Nia e gelado de espanto.
Enfim... Teria sido um momento perfeito, se todo o gelo não se tivesse quebrado quando a minha mãe abriu a porta e me deu a pior notícia dos últimos tempos.

Apesar da beleza inigualável do documentário, acreditem que as coisas más suplantam as boas, mesmo que tentemos impedir.

Ontem foi um dia mau por muitas razões. Muitas lágrimas estão ainda por jorrar. Penso que o gelo que senti com a coincidência com que me brindaram ainda não quebrou por completo.

Tenho medo. Muito medo que quando quebrar, não hajam braços que me consigam segurar.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Não Consigo


Devia ver-te, diz-me a consciência.
Devia ter a oportunidade de te dizer adeus ou simplesmente um olá, quem sabe.
Devia sorrir para ti, pegar-te na mão ténue e dizer-te "estou aqui".
Mas não consigo.
Sei que se te visse, não te veria a ti, mas a algo que de ti se tomou.
Sei que se te enfrentasse dar-te-ia a parte mais fraca de mim, aquilo que até o tempo te roubou.
Sei que se te olhasse seria pela última vez.
E não consigo.
Apodera-se de mim a cobardia dos que perdem a coragem
Perco tudo aquilo que nos ensinou que a vida é, de facto, uma passagem.
Fazes-me pensar que tudo pode escapar-nos pelos dedos, pode roer-nos a corda do destino, pode roubar-nos a felicidade, a riqueza, a família e a nós mesmos.
Não consigo.
Imagino aquilo que já não és.
Sonho com aquilo que de ti conheci.
Mas não consigo despedir-me de ti.

domingo, dezembro 24, 2006

O Homem dos Sete Instrumentos

Aqui está um exemplo de como, com as nossas mãos, conseguimos fazer muito mais do que o que imaginamos.



Feliz Natal para todos

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Porque é Natal


Porque é Natal, andamos felizes.

Porque é Natal, temos pena daqueles que são menos do que nós, que não têm um lar nem têm uma presente para dar.

Porque é Natal, assistimos a programas de televisão decadentes, com crianças que sofrem todo o ano, mas só agora decidimos dar-lhes atenção.

Porque é Natal, choramos a partida dos que já estiveram connosco.

Porque é Natal, damos dinheiro aos pobres, aos menos pobres e mesmo àqueles que são mais ricos do que nós.

Porque é Natal, perdoamos tudo. Ofendemos os outros sem pensar, mas passado uns minutos esquecemos e damos a desculpa de que "É Natal".

Porque é Natal, tudo nos parece mais bonito. Damos valor às pequenas coisas, andamos sensíveis e damos mais de nós do que em qualquer outra altura do ano.

Mas o Natal passa. O Natal é um dia, umas horas um momento do ano.

E nos restantes momentos, que fazemos nós?

Somos indiferentes aos outros, não temos desculpa para passar por cima deles, não temos uma prenda para lhe dar porque afinal... Não é Natal!

Há quem diga que Natal é quando o Homem quer. Eu diria que o Homem não quer que seja Natal. Esse Homem que sou eu e são todos vocês devia sentir vergonha.

O Natal são todos aqueles momentos que partilhamos com quem gostamos. São as pequenas coisas que nos dão e nos alegram tanto: os sorrisos, as cumplicidades, a companhia...

Pena que isto jamais vá mudar. O Natal vai ser sempre agora, neste dia, para todo o sempre.

E não me venham com falinhas mansas: o Homem não quer que o Natal seja noutro dia. O Natal é agora e nunca mais.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Uma janela aberta

Todas as pessoas que passam na nossa vida são únicas por simples razões.
Além de exclusivas, são também insubstituíveis e completamente incomparáveis.
Mas, por vezes, a vida afasta de nós muitas dessas pessoas. Porque existem caminhos a seguir, porque existem metas a alcançar e porque existe sempre um fim.
No entanto, quando uma porta nos é fechada, existe sempre uma janela a abrir-se diante de nós. Por vezes somos nós que não a queremos abrir, que temos medo de afastar as cortinas e de respirar o ar puro que vem de lá de fora.
Aprendemos a viver assim, com a vida e sem as pessoas que sempre foram importantes para nós. Algumas, mesmo que não partam deste mundo, deixam de estar presentes no nosso dia-a-dia, porque nem sempre os sonhos são fáceis de alcançar.
Foi esta a vida que escolhi: desprender-me de tudo o que me ligava afectivamente às minhas raízes.
Mas querem saber a melhor?
Quando olhei para a janela que se abriu diante de mim, não tinha uma mãe, não tinha um pai nem um irmão, não tinha um avô... nem um Daniel... Esses tinham ficado para trás a ver-me partir.
Mas tinha um dom, uma mão cheia deles: aquilo a que podemos chamar o verdadeiro amigo.
Aqueles que não substituem uma família, mas que verdadeiramente a são. Os laços de sangue podem não-nos unir, mas sabemos que estamos juntas venha o que vier. Vivemos as dores umas das outras e adoecemos quando a melancolia nos abate.
A todas elas deveria ter um "obrigado" a dizer.
Mas, pelo contrário, tenho a promessa que eternamente lhe estarei grata por não me terem deixado só quando pensei que só a mim me teria por companhia.
Esta é a janela que dá para o mundo que tive de enfrentar. Que foi duro, mas torna-se mole quando temos braços que nos podem aguentar.

domingo, novembro 26, 2006

A vida é um lugar estranho

Há estranhos lugares, em estranhos mundos, onde vivem estranhos seres que para nós serão sempre... estranhos!
Há outros, porém, que deixam de o ser porque abrem o seu coração para nós e nós abrimos o nosso ao deles, numa fusão de harmonia que nos soa... estranha!
Acredito que as almas vivem e se reencontram ao longo do tempo com aquelas que lhes são compatíveis. Podem passar anos, séculos ou até mais, quem sabe. Mas existem pequenos sinais no nosso dia-a-dia aos quais, se estivermos receptíveis, compreendemos que são indícios de que aquele ser, algum dia, conviveu com o nosso.
Isso aconteceu-me um destes dias em que, numa viagem como tantas outras, num dia como tantos outros, mais uma vez o comboio teve uma história para contar.
Havia alguém que deixou de ser estranho. Que nasceu para pertencer, não direi à minha vida, mas à minha experiência. E alguém o colocou no meu caminho para me ensinar. A crescer, a ver para além dos olhos dos outros, a ser mais receptiva e menos desconfiada.
E no momento em que formos capazes de ver que há tanta na gente no mundo que até pode ser igual a nós, mesmo que pensemos que não... Então aí seremos autênticos e capazes de comprovar que, ao contrário do que pensamos, a vida pode não ser um lugar estranho.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Olhos que não vêem

Há uma fila interminavel de gente que inicia mais uma semana de trabalho. Há um atropelamento contínuo de pés, de malas e de vozes. Um percurso acidentado que se sucede todas as santas semanas, em todos os primeiros dias.
Os olhares são quase sempre os mesmos. O clima arrefece o coração e o pensamento é transportado para um lugar longínquo. Quase tão longínquo quanto a nossa casa se vai tornado, assim que o comboio desliza pelos carris frios.
E eu olho pela janela os mesmos lugares, as mesmas paisagens. os actos são sempre os mesmos, rotineiros, batidos, pouco sentidos. Nunca há nada de novo, nunca há nada alegre na hora em que me sinto afastar daquilo que realmente me faz feliz.
Às vezes, num disparo de agonia sinto alguns corações baterem diferente, ouço alguns pensamentos perdidos e nasce-me a vontade. De correr, de gritar contra tudo. Como se todos fossem culpados por eu ter que me ir embora.
Hoje, apesar de cá dentro sentir o mesmo de todos os dias, houve algo que desviou a minha atenção. Tantas são as vezes em que olhamos e não vemos ou mesmo as vezes em que vemos e preferiamos não ver. Somos tão injustos...
Uma rapariga saiu do comboio, tal como eu. Era jovem, tal como eu. Cabelos compridos, olhar posto no infinito, tal como eu. A mão ia estendida em frente, segurando algo, tal como eu segurava. Aa minha mão rodava a mala que transportava tudo aquilo que ainda posso trazer comigo. Na mão dela, também algo que ela não pode abdicar. A vida que lhe tiraram, ofereceu-lhe o dom de ter sempre consigo uma companhia.
E mesmo rodeada daquele mar de gente vulgar, mesmo partilhando com eles aquele dia igual a tantos outros, naquele instante o meu momento fechou-se nela... O meu mundo afunilou.
Então vi-a. Era a Susana e o cão que lhe deu o olhar que a vida lhe roubou.

sábado, novembro 04, 2006

Sonho mau


Fecha os olhos e descansa. Amanhã, vou abrir a janela do teu quarto e deixar que a luz do sol te aqueça. Quando acordares, tudo terá sido apenas um sonho.
Já passou...
(aumenta o volume)

Tu Guardian

Duermete pronto mi amor
Que la noche ya llego
Y cierra tus ojos que yo
De tus sueños cuidare
Siempre a tu lado estare
Y tu guardian yo sere
Toda la vida
Si un dia te sientes mal
Yo de bien te llenare
Y aunque muy lejos tu estes
Yo a tu sombra cuidare
Siempre a tu lado estare
Y tu guardian yo sere
Toda la vida
Esta noche te prometo que no vendran
Ni dragones ni fantasmas a molestar
Y en la puerta de tus sueños yo voy a estar
Hasta que tus ojos vuelvan a abrir
Duermete mi amor sueña con mi voz
Duermete mi amor hasta que salga el sol
Duermete mi amor sueña con mi voz
Duermete mi amor que aqui estare yo
Esta noche te prometo que no vendran
Ni dragones ni fantasmas a molestar
Y en la puerta de tus sueños yo voy a estar
Hasta que tus ojos vuelvan a abrir
Duermete mi amor sueña con mi voz
Duermete mi amor hasta que salga el sol
Duermete mi amor sueña con mi voz
Duermete mi amor que aqui estare yo
(Juanes)

As palavras, às vezes, são tão efémeras....
Mas estou certa que amanhã, quando acordarmos, tudo não passará de um sonho mau.

sábado, outubro 28, 2006

Abriram-se as portas

A vida dá-nos, por vezes, sinais tão claros daquilo que podemos esperar dela, daquilo que precisamos para continuar a caminhar e daquilo que nos é imprescindível para não desistir...
Nos mais ténues pormenores somos chamados à atenção para a necessidade de não cair, com o risco de não termos quem nos estenda a mão e nos ajude a erguer...
Não que eles não estejam lá, mas porque nem sempre estão na mó de cima e com forças para aguentar com o nosso peso numa só das suas mãos.
Sim, por vezes o mundo desaba nas nossas costas. Por vezes a vida perde todo o sentido e sentimo-nos sós. Por vezes a voz dos outros não é suficiente para afagar a nossa mágoa e a dor é tão forte que se torna inexplicável, e tão fina que nos quer sufocar.
Mas é sempre verdade que um dia o sol tornará a brilhar.
E é sempre exacto que a vida nos oferece pingos de felicidade e toques de magia para nos fazer acreditar.
Ontem, quando à semelhança de todas a sextas-feiras, corria em direcção ao meu lar doce lar, tão desejado como nunca e que se reveste sempre de maior encanto quando se torna próximo, sabia que todos os minutos eram sagrados e nenhum podia ser desperdiçado.
Pus o pé fora do comboio que me trouxe de Braga e apenas cinco metros me separavam da última etapa que me faltava percorrer. Arrastei todo o peso que carregava, para além daquele que trazia nas costas, e quando, enfim, me aproximo, as portas fecharam-se e o outro comboio preparava-se para partir.
«Não acredito... Isto só a mim...»
Mas alguém lá em cima deve ter tido dó e pensado que ninguém merece tanta dor numa semana só. A espera de mais 15 minutos seria a última gota, perderia toda a força de regressar que agora se começava a esmorecer.
Preparava-me para virar costas e descer as escadas, mais uma vez com aquela mala penosa como a minha semana a arrastar-se atrás de mim quando, de repente, quando já não acreditava em nada... As portas abriram-se para eu entrar...
Foi um momento simples para tanta gente, provavelmente stressante para os restantes tripulantes do comboio que tinham horários para cumprir. Mas para mim, aquele segundo foi eterno.
Quando tudo me parecia impossível, as portas abriram-se só para mim e fizeram-me acreditar que quando se crê com muita força, o mundo dá-nos sempre um sinal e faz-nos esquecer a dor passada que a vida muitas vezes nos dá.

domingo, outubro 22, 2006

Cara Nova


Porque às vezes nos cansamos de quem somos e da imagem que reflectimos no espelho e nem sempre somos capazes de ser diferentes, o Sonata ao Luar decidiu mudar a cara com que todos o vêem.
Espero que apreciem, caros leitores, e que o continuem a presentear com as vossas humildes, mas sempre queridas visitas.
Um grande bem-hajam.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Dias tristes

Há dias em que a chuva que bate na vidraça e te molha os pés, se torna tão fria e fina que penetra também o teu coração.
Então o teu céu torna-se escuro, as nuvens movem-se na imensidão do tempo e o sol foge com medo de ti.
Nesses dias, tudo tem medo de ti. Até tu própria. Medo se seres quem és, medo de veres quem és, medo do que possas fazer e medo do que possas ser.
Nesses dias escuros, quando tens medo e queres chorar, quando queres fugir e regressar, quando queres um guarda-chuva para te abrigar, apenas te restas tu.
Olha que maçada! Mas tu estás com medo. O dia é escuro e tu temes o breu.
Se a tua mãe cá estivesse acendiamos uma vela e contavamos histórias dos velhos tempos, quando a luz não passava nas correntes da tua humilde terra. Ou então jogavamos ao STOP, em volta da lareira da sala, que aquece sempre tudo: a casa, a família, o coração.
Bolas... Há dias em que chove, em que tens medo, em que não há luz e em que não tens lareira.
Esses sim, são os dias mais tristes.

domingo, outubro 08, 2006

Ignorem-me


3, 2, 1.. Acção!
Olá... Eu sou...
As palavras fogem pelas cordas vocais vibrantes. A voz desfaz-se numa rouquidão muda. A inquietação sobe e transmite ao corpo um suor frio e seco que as mãos não conseguem enxugar. Escorregam as sílabas e perdem-se na imensidão de pensamentos que se focam unicamente no ponto vermelho que pisca agora e me quer ofuscar.
Já devia ter começado a falar. Todos me olham mas não os consigo ver. Todos me escutam mas esqueci a tonalidade da minha voz.
Olho em volta sem descolar o olhar e sinto-me só, impotente, insegura.
Neste momento, tudo o que é certo deixa de o ser, tudo o que é seguro começa a desaparecer e somos nós e ela, que perscruta o nosso movimento mais simples.
Não penso que ninguém viu, penso que ninguém deixou de o ver porque hoje eu estou no centro. Mas ai como odeio ser o centro, ai como queria recolher-me na insignificância da minha criatura, escorregar pela liquidez do chão que me quer fugir por debaixo dos pés.
Foge. E a minha vontade é de o perseguir, de perfurar a objectiva e desaparecer. Num além infinito onde possa, enfim, criar para o mundo, mas sem que me vejam...não me agradeçam, não me digam nada, não me façam nada. deixem-me ser quem sou, transparente e fantasma, passem por entre mim e simplesmente...
Ignorem-me.

sábado, setembro 30, 2006

Um sonho tornado real

Há sonhos que nascem connosco, há outros que crescem ao longo da vida.
Foi um dia, quando os meus sábados de manhã ainda não eram perfeitos, quando juntava a minha voz a dezenas delas na Academia que me ensinou a amar a música, que o Cats entrou na minha vida.
"- Tenho uma nova música para vocês". As notas entoavam algo como "Oh, well, I never was there ever a cat so clever as magical Mr Mistoffeles..."
A primeira vez que assisti ao espectáculo foi pela TV, dias mais tarde, como se o destino me estivesse a apontar pistas para aquele que seria o mais fabuloso climax de música e dança a que alguma vez poderia assistir.
O sonho nasceu na utopia de o encontrar no West End (New London Theatre). A impossibilidade de o concretizar confirmar-me-ia o facto de ser apenas mais uma fantasia.
Mas, como sempre me ensinaram, quando Deus nos fecha uma porta, abre-nos algures uma janela. E a brisa chegaria no dia 14 de Setembro de 2006, ao Coliseu do Porto.
O camarote era só meu e aos primeiros acordes, os milhares de pessoas em redor deixaram de existir assim que me fundi naquela excentricidade de sons que dançavam diante mim. As vozes atiravam-se para o infinito, os corpos moviam-se num bailado encantador.
Vidas que, num processo de metamorfose belíssimo, personificavam o viver de uma comunidade de gatos vadios que se reunem todos os anos para eleger aquele que será elevado à divindade.
As minhas mãos batiam palmas freneticamente sem que pudesse controlar, a minha voz queria juntar-se à deles e o meu corpo bailar ao mesmo ritmo. A altura impediu-me de o fazer, mas foi incapaz de conter as lágrimas recatadas da emoção enclausurada durante tantos anos de sonho ardente.
Porque tudo o que custa a alcançar tem sempre um sabor especial...
O Cats foi a mais bela manifestação musical a que alguma vez assisti.
Um sonho tornado real.

sábado, setembro 23, 2006

Tempo

Vai e vem como o vento, como o sol em dia de tempestade, como as estrelas em noite de lua nova.
Corre quando se deve arrastar e rasteja quando deve galopar.
É cruel e brincalhão, trocista e rezingão.
Esconde-se no fio dos dias, por detrás das colunas do coração e troça de mim...
Passa, e quando passa deixa sempre algo para trás.
Tem fases... Eu costumo dizer que "é de luas"... Ora é leve e passa despercebido por entre o mar de pensamentos que me preenchem, ora se enche de orgulho e se reveste de importância, instalando-se na memória e ocupando os espaços vazios.
Não vivo sem ele, mas por vezes odeio-o e quero poder "cortar-lhe as pernas, para que deixe de correr" ou, quem sabe, oferecer-lhe umas asas para que aprenda a voar...
É o tempo.
E dele, o Abrunhosa fala assim:

Batem relógios no raiar dos dias,
Por cada batida novas fantasias.
Loucas palavras, luzes cor de mel,
E Ventos que trazem nuvens de papel.
Diz-me o que hei-de eu fazer,
Sinto no tempo o meu tempo a morrer.
Quanto mais longe, mais perto de ti.
Vozes ao longe chamam por min,
Cantigas, magia, passos de arlequim.
Estrelas cadentes na palma da mão,
Milagres, duendes, rasgos de paixão.
Diz-me o que hei-de eu fazer,
Sinto no tempo o meu tempo a morrer.
Quanto mais longe, mais perto de ti.
Ouço os segredos do fundo do mar,
Barcos perdidos, sereias a cantar.
Trago o teu nome escrito no peito,
Volta para mim, faz teu o meu leito.
Diz-me o que hei-de eu fazer,
Sinto no tempo o meu tempo a morrer.
Quanto mais longe, mais perto de ti.
(Pedro Abrunhosa, Tempo)

sábado, setembro 09, 2006

Um lugar para recordar



Espero o momento da partida que não desejo, Aguardo que se façam bons ventos
Ponho a mochila às costas
E leio os meus pensamentos.
Os passos são leves e deixam um rasto infindável
A respiração calma, quase calada
Olho para trás pela última vez e agora sei que não quero partir.
Os dias de ontem sorriem-me largamente
Em movimentos secretos de alegria
Há acenos de mão, abraços apertados e vozes que se fazem ouvir.
No fundo sei que me dizem para continuar.
Agora sou eu quem não as quer escutar.
Os passos são cada vez mais ténues e incertos. O fim aproxima-se a compassos marcados. Há uma lágrima roliça que não quero deixar cair, mas antes que eu tenha tempo de a evitar, já o seu sabor salgado se espalha nos lábios.
As vozes são graves, as mãos desenlaçam-se assim que me afasto.
Então as imagens desfocam-se à distância e para trás não deixo nada mais senão um rasto...
A saudade.
A mochila às costas faz-se pesada de recordações
Coloco a mão à porta, sei que não há volta a dar,
Não olho para trás porque já não consigo ver
É de olhos fechados que apago os pensamentos passados
E enfrento o futuro sem a certeza do que irá acontecer.
Sei que não quero ir
Sei que não quero partir
Mas sei que onde chegar
Tenho a esperança que hei-de encontrar
Um lugar seguro para recordar.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Frio no Coração

Abro a janela...

Há um frio que me rasga com a força de um punhal
Há um arrepio, um gélido suspiro carnal
Lá fora, o vento sopra quente,
Há um bafo de verão
Cá dentro, bate calado e frio o meu coração
A vida desfila perante a escuridão dos olhos que não consigo ver
Os sorrisos que tive, os risos que sustive estão prestes a desaparecer
Há lágrimas e suor,
Saudades e recordações que se atropelam com ardor
O bom da vida aparece a preto e branco no filme que gravo ao longo do tempo
As imagens ressaltam o meu pensamento
Faz calor lá fora
Desejo que esta luz nunca se apague, este sol nunca pare de me aquecer os dias ternos
Almejo que estes tempos para mim sejam eternos
O tempo escurece, a lua aparece
O termómetro ainda esquenta a pele queimada e partida
O choque térmico dá-se agora,
Quando tudo dorme excepto o meu coração ferido,
O meu futuro sentido,
A ânsia de que nunca chegue.

Fecho a janela,
Faz frio no meu coração.

quinta-feira, agosto 31, 2006

Conto de Fadas


Pego no lápis de cor e desenho um sol amarelo que enche de alegria o ar, uma nuvem azul e um pássaro cor de mar.
Em baixo, os campos são verdes e a minha casa é branca como a neve, o telhado encarnado deixa escapar a pequena chaminé inclinada pelo fumo que dela sai ao de leve.
Há flores, ervas e uma árvore de frutos vermelhos. Pergunto-me se poderei comê-los e o desejo trai-me quando arranco a pequena maçã do ranco. É fresca e ácida, mas estranhamente não me cresce água na boca. Aprecio e gosto. Sorrio e rebolo no chão.
O meu vestido é cor-de-rosa com muita roda, os meus cabelos estão clareados pelo sol e ondulam com a brisa que mos penteia. As meias brancas tocam-me ao de leve os joelhos alvos e os meus pequenos sapatinhos são rosa, da cor do vestido que hoje trago.
Não há chuva nem vento, tempestade nem tormento. Aqui, tudo é rosa e azul bebé...
Há um cavalo branco que montas e conduzes a trote até mim. Entao ajudas-me a subir e a montar como "uma senhora", com ambas as pernas arrumadas ao lado esquerdo.
Partimos em direcção ao teu castelo feito de por-do-sol e nuvens douradas.
Aí somos só nós, numa história de conto de fadas...

segunda-feira, agosto 21, 2006

Antropologicamente Falando


De entre muitos pensamentos que me invadem e que merecem ser transcritos no meu blog, o surgimento desta ideia pode dizer-se que veio do nada. De um nada preenchido de pessoas, de seres que, de uma maneira ou de outra, me marcaram e continuam a marcar a cada dia que passa.
Todos conhecemos um número infinito de pessoas. Já tentaram recordar-se de todas e de as contar? Eu diria que tal é impossível. Na verdade, são tantas as que passam pela nossa vida e que deixam alguma coisa (ou mesmo que nem deixem nada) que são pouquíssimos os dedos das mãos que nos permitam contabilizá-las. A propósito do facto de essas pessoas nos darem ou não alguma coisa, eu acredito que muitas vezes não temos noção do quanto elas nos dão. Mesmo que pensemos que não nos deixam nada de importante, o erro reside em pensarmos em tal. Um sorriso, um olhar, uma palavra mesmo que rude, tudo isso são presentes que o destino coloca no nosso caminho para nos lembrar que não estamos sós e que onde quer que vamos, seja qual for o caminho que escolhermos, estará sempre alguém, nem que seja no fundo do túnel, quando pensamos que ultrapassamos o pior sozinhos e que já não necessitamos de ninguém. Pois enganamo-nos: precisamos sempre mais dos outros do que nós próprios imaginamos.
E porque normalmente as nossas recordações não têm cor, penso que esta imagem é o melhor que a minha mente pôde fotografar...

sexta-feira, agosto 18, 2006

Recordando...

Incrível o poder que detém a música ao ponto de ser capaz de transladar o nosso corpo e alma para um oriente desconhecido, desprovido de qualquer ligação terrestre. Ganhamos asas e desconectamo-nos do mundo real. Ali somos só nós e os nossos pensamentos, dispersos numa imensidão de emoções...
É este o poder do som. A acústica penetra o tímpano mais imune e percorre as veias frias que logo escaldam a alma mais distante.
Admirável a capacidade de evasão que ela nos proporciona. Por isso eu decidi viver por ela. Entrego-me a ela a cada acorde solto, a cada nota desgarrada à profundidade do sentimento que causa. Faço-o porque sei que me torno melhor a cada cadência, porque o meu coração marca o compasso calmo e certo da batida por que se rege.
Apreciar uma música passa pela liberdade de evasão proporcionada pelas palavras que nos canta, mas também pela penetração na sua essência até ao mais profundo acorde, à mais tímida escala que se solta pianinho por detrás do pano...
É assim a música: indescritível, dotada de poderes supremos que somos incapazes de compreender. Apenas o entendo quando aprecio bem fundo o dom que só alguns possuem de, com o próprio coração deixarem soltar uma conjugação de notas que tornam o nosso ouvido sensível à sua beleza e que são capazes de transformar a nossa vida em algo bem mais interessante.
E porque uma música é capaz de mudar muitos momentos, deixo aqui a letra de uma que mudou as minhas férias e, quem sabe, os meus dias, enquanto os houver...


Para tu amor
Juanes

Para tu amor lo tengo todo
Desde mi sangre hasta la esencia de mi ser
Y para tu amor que es mi tesoro
Tengo mi vida toda entera a tus pies
Y tengo también

Un corazón que se muere por dar amor
Y que no conoce el fin
Un corazón que late por vos
Para tu amor no hay despedidas
Para tu amor yo solo tengo eternidad

Y para tu amor que me ilumina
Tengo una luna, un arco iris y un clavel
Y tengo también
Un corazón que se muere por dar amor
Y que no conoce fin
Un corazón que late por vos
Por eso yo te quiero tanto que no sé como
explicar lo
Que siento

Yo te quiero porque tu dolor es mi dolor
Y no hay dudas
Yo te quiero con el alma y con el corazón
te venero
hoy y siempre gracias yo te doy a ti mi amor
por existir

para tu amor lo tengo todo
lo tengo lodo y lo que no tengo también
lo conseguiré
para tu amor que es mi tesoro

Tengo mi vida toda entera a tus pies
Y tengo también...

domingo, agosto 13, 2006

Tears and Rain


Aqui os dias são perfeitos, coroados de sol e luz, sal e calor.
Aqui os raios brilham na clareza dos corpos dourados, na frescura das ondas que vêm e vão e nunca se acabam.
Aqui tudo começa onde a minha solidão termina. A areia estende-se no manto interminável dos dias que são um fio sempre igual, sempre fino e delicioso porque são dias, que começam ténues e claros e terminam doces, brindados de açúcar e gelo e música...
Aqui há uma varanda com vista para o mar, há uma onda que surge de entre o betão erguido ao céu, robusto e escuro, rasgando a celestidade do céu.
Aqui há Eça de Queirós, há sorrisos e diversão...
Saudade... Aqui há algo que não está, há algo que ficou e a reacende a chama do regresso.
Mas aqui há "tus", há "eus", há "nós"... Um "nós" que não conheciamos...
Um olhar na eternidade, um beijo na intimidade, um sorriso de felicidade...
Aqui, tudo o que não temos "...is just tears and rain..."